Quando lançou Os Fantasmas se Divertem em 1988, Tim Burton consolidou muitas das características que passariam a definir sua carreira: o humor macabro, os personagens excêntricos e a capacidade de transformar a morte em um playground de imaginação visual. Décadas depois, Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice revisita esse universo com a difícil missão de agradar tanto aos fãs nostálgicos quanto a uma nova geração. Felizmente, o diretor encontra no próprio caos a melhor forma de justificar esse retorno.
A trama acompanha Lydia Deetz, agora adulta, mãe da adolescente Astrid e apresentadora de um programa sobre fenômenos sobrenaturais. Após uma tragédia familiar, três gerações dos Deetz retornam à antiga casa em Winter River, onde a descoberta da famosa maquete da cidade acaba reabrindo a passagem para o mundo dos mortos. Como era de se esperar, o nome de Beetlejuice volta a ecoar, trazendo consigo uma nova onda de confusões sobrenaturais.

Desde os primeiros minutos, fica claro que Burton está mais interessado em resgatar a energia anárquica do original do que em construir uma continuação excessivamente calculada. O filme funciona como uma sucessão de ideias malucas, criaturas bizarras, piadas visuais e situações improváveis que parecem surgir sem qualquer preocupação em seguir uma lógica convencional. Curiosamente, é justamente essa liberdade que torna a experiência tão divertida.
Visualmente, a produção representa um retorno bem-vindo ao Burton mais artesanal. Os cenários físicos, as maquiagens carregadas, os efeitos práticos e as criaturas construídas manualmente devolvem ao diretor uma identidade que muitas vezes parecia diluída em seus trabalhos mais recentes. Há uma sensação constante de que estamos observando um universo criado por artistas, cenógrafos e animadores, e não apenas por computadores, algo que aproxima o filme do charme do clássico original.
Michael Keaton retorna ao papel como se o tempo simplesmente não tivesse passado. Seu Beetlejuice continua irreverente, inconveniente e absolutamente imprevisível, roubando a atenção sempre que surge em cena. Ainda assim, quem oferece o coração da narrativa é Winona Ryder. Sua Lydia carrega as cicatrizes da vida adulta sem perder completamente a estranheza melancólica que a transformou em uma personagem tão marcante. Jenna Ortega também encontra seu espaço como Astrid, funcionando como uma espécie de reflexo moderno da jovem Lydia dos anos 1980.

Nem tudo funciona com a mesma eficiência. O roteiro acumula personagens, conflitos e subtramas em quantidade suficiente para alimentar mais de um filme. Algumas ideias aparecem e desaparecem rapidamente, enquanto outras parecem existir apenas como desculpa para Burton apresentar uma nova invenção visual. Em certos momentos, a narrativa perde foco e dá a impressão de estar correndo atrás de si mesma para conectar todas as peças espalhadas pelo caminho.
Ainda assim, Os Fantasmas Ainda Se Divertem: Beetlejuice Beetlejuice conquista justamente por abraçar suas imperfeições. Assim como o filme original, ele entende que seu maior trunfo nunca foi a coerência absoluta, mas sim a criatividade desenfreada. É uma continuação que celebra o espírito irreverente de seu antecessor e oferece ao público a oportunidade de revisitar um dos universos mais particulares da filmografia de Tim Burton, provando que alguns fantasmas realmente merecem voltar para mais uma rodada de diversão.





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