Apocalipse nos Tropicos

(2024) ‧ 1h50

10.07.2025

Profetas do caos em "Apocalipse nos Trópicos"

Com Apocalipse nos Trópicos, Petra Costa mais uma vez mergulha nas entranhas da política brasileira, mas agora troca o tom intimista de Democracia em Vertigem por um registro ainda mais assustador: o avanço de uma ideologia religiosa fundamentalista que contamina o Estado e ameaça os pilares da democracia. A diretora transforma seu olhar lírico em denúncia contundente, revelando um Brasil à beira de um abismo teocrático.

O documentário lança luz sobre o papel central dos líderes evangélicos na ascensão de Jair Bolsonaro, mas vai além do retrato de um político populista: Petra se debruça sobre o projeto de poder que mobiliza a fé como arma e a Bíblia como manual de guerra cultural. Nesse sentido, figuras como Silas Malafaia não aparecem apenas como pastores midiáticos, mas como operadores políticos de altíssima influência, que negociam cargos, ditam pautas e inflamam uma retórica apocalíptica para justificar intolerância e autoritarismo.

Com acesso privilegiado aos bastidores, Apocalipse nos Trópicos acompanha os últimos anos do Brasil em meio a crises políticas, sanitárias e institucionais. Mas o foco não está apenas nos fatos: o filme traça conexões históricas com o surgimento do evangelicalismo no país, revelando como o discurso do fim dos tempos, importado com entusiasmo após a Segunda Guerra Mundial, se transformou numa estratégia de dominação ideológica. O resultado é um diagnóstico inquietante: uma minoria barulhenta governa com base na fé, sem a mediação da razão.

A montagem alterna imagens impactantes dos protestos, entrevistas com políticos e líderes religiosos, e uma narração que, mesmo mais contida do que em seus trabalhos anteriores, ainda carrega o peso de quem observa seu país se desfazer diante dos próprios olhos. Petra não esconde a perplexidade nem tenta neutralizar sua perspectiva. O filme é, antes de tudo, um alerta — e não há como ignorá-lo.

Há momentos de ironia amarga, como quando Malafaia tenta justificar seu jatinho como um bem “desvalorizado”, ou quando evangélicos justificam discursos de ódio com trechos bíblicos escolhidos a dedo. Essas cenas, por mais absurdas que pareçam, não são caricatas: são registros reais de uma guerra cultural que já não se trava apenas no campo simbólico, mas também no jurídico, no educacional, no legislativo.

O filme também observa como a esquerda — representada aqui por Lula — precisou dialogar com esse eleitorado para retomar o poder. A aliança pragmática com setores religiosos, mesmo que moderados, evidencia o quanto a religião se tornou um território incontornável na disputa política brasileira. Ao mostrar Lula tentando equilibrar discurso progressista e acenos conservadores, Petra escancara os limites do jogo democrático quando as regras são ditadas por dogmas.

Apocalipse nos Trópicos é um filme essencial para entender o Brasil de hoje — não apenas como país em crise, mas como campo de batalha simbólica. Diante de um futuro incerto, em que o delírio apocalíptico substitui o debate racional, Petra Costa nos oferece uma visão clara, lúcida e necessária sobre os riscos de deixar a democracia nas mãos dos falsos profetas do fim.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

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