Aquele que Viu o Abismo

(2024) ‧ 1h10

Perdido no próprio delírio

Felipe Fornari

Aquele que Viu o Abismo apresenta uma proposta ambiciosa ao misturar ficção científica, paranoia, performance e experimentação audiovisual em um universo distópico. Acompanhando um protagonista que tenta sobreviver a uma realidade opressora enquanto enfrenta visões e conspirações envolvendo uma misteriosa corporação, o filme se coloca desde o início como uma experiência que rejeita qualquer caminho convencional. A intenção de provocar o espectador é evidente, mas o resultado acaba sendo mais frustrante do que instigante.

Gregorio Gananian e Negro Leo apostam em uma narrativa fragmentada, construída muito mais por sensações do que por acontecimentos. As imagens, a trilha sonora e as intervenções performáticas procuram transmitir o estado mental do protagonista, fazendo com que realidade e delírio se confundam constantemente. Em teoria, essa escolha amplia as possibilidades de interpretação, mas, na prática, o excesso de abstração dificulta a criação de qualquer vínculo consistente com a história.

Visualmente, há momentos com forte personalidade. Algumas composições e a utilização de diferentes suportes e texturas revelam um desejo genuíno de explorar novas formas de linguagem cinematográfica. A trilha sonora também desempenha um papel importante na construção da atmosfera, alternando momentos de contemplação e explosões sonoras que reforçam o caráter caótico da narrativa.

O problema é que toda essa inventividade raramente encontra um eixo dramático capaz de sustentar a experiência. Em diversos momentos, Aquele que Viu o Abismo parece acreditar que o simples acúmulo de imagens enigmáticas e simbolismos basta para criar profundidade. Em vez de despertar curiosidade, a repetição de estímulos desconexos acaba produzindo distanciamento, tornando difícil encontrar algum investimento emocional na jornada do protagonista.

Mesmo as reflexões sobre controle social, alienação, tecnologia e opressão permanecem excessivamente difusas. O filme levanta ideias interessantes, mas prefere sugeri-las de maneira tão fragmentada que elas raramente ganham peso suficiente para provocar um debate mais consistente. A sensação é de que existe um discurso por trás das imagens, mas ele fica permanentemente encoberto por uma camada de experimentação que nem sempre se justifica.

Isso não significa que a proposta seja desprovida de valor. Há quem encontre justamente nessa liberdade narrativa o principal atrativo da obra, e é inegável que o filme demonstra coragem ao desafiar formatos tradicionais de contar histórias. No entanto, ousadia, por si só, não garante envolvimento, especialmente quando a experiência exige um esforço constante sem oferecer recompensas proporcionais ao longo do caminho.

No fim, Aquele que Viu o Abismo funciona mais como um exercício de linguagem do que como uma narrativa capaz de estabelecer uma conexão com o público. Sua identidade visual e sonora chama atenção, mas a ausência de um fio condutor mais sólido faz com que o filme permaneça preso ao próprio labirinto de símbolos e abstrações. O resultado é uma obra que desperta curiosidade por sua proposta, mas que dificilmente consegue transformar esse interesse inicial em verdadeiro impacto.

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