Assalto à Brasileira

(2026) ‧ 1h38

Assalto à Brasileira e o absurdo de um crime que virou espetáculo

Felipe Fornari

“Pense no absurdo: ele já aconteceu no Brasil” é uma frase que sintetiza bem a proposta de Assalto à Brasileira. Inspirado em um dos roubos mais marcantes da história do país, o longa de José Eduardo Belmonte abandona boa parte das convenções dos filmes de assalto para explorar o improviso, a confusão e as contradições de uma sociedade atravessada pela crise econômica. Em 1987, durante um período de inflação elevada e desemprego, um jornalista recém-demitido acaba envolvido em uma situação extraordinária ao presenciar a invasão de uma agência bancária em Londrina. A premissa oferece um terreno fértil para uma mistura de comédia e crítica social, mas a produção nem sempre consegue encontrar o equilíbrio necessário entre essas duas propostas.

Quem espera uma narrativa de assalto construída em torno de estratégias elaboradas, reviravoltas e tensão crescente pode se surpreender com o caminho escolhido pelo diretor. Aqui, os criminosos não são apresentados como mentes brilhantes, mas como homens que parecem descobrir o tamanho do problema em que se meteram à medida que os acontecimentos avançam. A falta de planejamento transforma a operação em uma sucessão de improvisos, enquanto a polícia também demonstra dificuldades para lidar com uma situação que rapidamente foge ao controle. Essa inversão tem seu interesse, especialmente por aproximar o filme de uma comédia de erros, mas também acaba retirando parte da tensão que deveria sustentar uma história com centenas de reféns.

O olhar de Paulo, interpretado por Murilo Benício, funciona como principal instrumento para acompanhar os acontecimentos. Desempregado e em busca de uma oportunidade para recuperar seu espaço no jornalismo, ele enxerga no assalto a possibilidade de produzir a reportagem que poderá mudar sua trajetória profissional. Entretanto, sua permanência dentro do banco levanta questões sobre suas verdadeiras intenções. Embora a narrativa ocasionalmente sugira alguma preocupação com as pessoas envolvidas, o personagem parece muito mais interessado na dimensão pública do acontecimento e na chance de se transformar no protagonista de uma grande história. Essa ambiguidade poderia render uma reflexão interessante sobre o sensacionalismo e a exploração midiática da tragédia, mas o roteiro não aprofunda suficientemente essas contradições.

Entre os assaltantes, Moreno e Barba representam perspectivas distintas diante da situação. O primeiro demonstra hesitação diante da possibilidade de violência, preocupa-se com os reféns e tenta justificar suas ações como uma espécie de revolta contra um sistema que considera mais criminoso do que ele próprio. Barba, por outro lado, apresenta uma postura mais impulsiva e agressiva, criando um contraponto que poderia revelar conflitos interessantes dentro do grupo. O problema é que essas diferenças permanecem pouco exploradas. As motivações dos personagens são apresentadas de maneira superficial, e a tentativa de humanizá-los frequentemente se aproxima de uma idealização que reduz a complexidade de suas escolhas. A intenção de mostrar criminosos que também são produtos de uma realidade social injusta é válida, mas faltam nuances para que essa abordagem alcance toda a sua força.

Os próprios reféns acabam sofrendo com essa limitação. Apesar da oportunidade de apresentar diferentes histórias e perspectivas sobre o acontecimento, muitos personagens são utilizados principalmente como instrumentos para pequenas situações cômicas. Algumas dessas passagens funcionam e ajudam a construir o absurdo da experiência, mas a repetição de esquetes enfraquece a percepção do perigo. Afinal, estamos diante de um assalto armado, com centenas de pessoas submetidas à incerteza de não saber se conseguirão sair vivas daquele lugar. Quando o humor ocupa quase todos os espaços, a ameaça perde sua presença e o espectador deixa de sentir o peso humano da situação. A produção parece hesitar entre tratar os reféns como indivíduos ou apenas como parte do espetáculo.

É justamente nessa indecisão que estão as maiores fragilidades do longa. A primeira parte encontra um ritmo mais interessante ao explorar o inesperado e o despreparo dos envolvidos, mas, conforme Paulo assume uma posição cada vez mais central nas negociações, a narrativa perde espontaneidade. A comédia, a crítica social e o suspense não chegam a formar uma unidade convincente, e até a trilha sonora parece acompanhar essa oscilação sem estabelecer uma identidade clara. Há momentos em que o absurdo brasileiro oferece situações genuinamente divertidas, enquanto outros parecem pedir uma tensão dramática que o próprio filme se encarrega de interromper. O resultado é uma experiência irregular, que encontra boas ideias, mas raramente consegue desenvolvê-las até suas últimas consequências.

Ainda assim, Assalto à Brasileira tem mérito ao propor uma abordagem diferente para um episódio tão extraordinário da história nacional. Ao trocar o planejamento meticuloso pela improvisação e colocar o jornalismo no centro dos acontecimentos, Belmonte encontra uma oportunidade de discutir a crise econômica, a desigualdade e a transformação de um acontecimento traumático em espetáculo midiático. O filme, porém, parece satisfeito em apresentar essas questões sem investigar profundamente suas implicações, deixando personagens e conflitos pelo caminho. Entre o humor e o drama, há uma produção com ideias interessantes e momentos de boa observação social, mas que não encontra a consistência necessária para transformar seu absurdo em uma experiência realmente marcante.

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