Belfast

(2021) ‧ 1h38

10.03.2022

Memórias e sonhos em “Belfast”

Em Belfast, Kenneth Branagh nos transporta para os anos 1960, onde acompanhamos a vida de Buddy, um menino de nove anos que cresce em meio ao início dos conflitos religiosos e políticos na Irlanda do Norte. Branagh faz um retorno às suas próprias raízes, trazendo à tona lembranças da infância e experiências marcantes, agora recriadas com uma visão nostálgica e afetuosa. É uma história sobre família, sonhos e o impacto de um mundo em transformação.

O filme, narrado sob a perspectiva inocente de Buddy, evita mergulhar profundamente na complexidade política dos conflitos, optando por focar no efeito que a violência ao seu redor causa em sua vida cotidiana. Para Buddy, esses conflitos são apenas uma barreira entre ele e seus amigos católicos, que antes conviviam em harmonia. A escolha de Branagh em contar essa história pelo olhar de uma criança traz uma perspectiva diferente, revelando o lado humano e descomplicado de uma época de grande tensão.

Em meio à violência e às incertezas, o porto seguro de Buddy está em sua família. Seu pai, vivido por Jamie Dornan, trabalha na Inglaterra e é a favor de uma convivência pacífica entre religiões, algo que o distancia dos militantes locais. Já sua mãe, interpretada por Caitríona Balfe, tenta manter a normalidade em casa, mesmo com a possibilidade iminente de abandonar Belfast. Essa dinâmica familiar é reforçada pela presença dos avós, interpretados por Judi Dench e Ciarán Hinds, que proporcionam conforto e sabedoria ao menino.

Belfast é composto por uma série de pequenos momentos que constroem uma colagem de lembranças de infância, muito semelhante ao estilo de Esperança e Glória de John Boorman. Branagh prefere explorar os laços familiares e o que esses pequenos momentos representaram na formação de sua identidade. O foco nas interações familiares permite que a narrativa avance com um tom de melancolia e afeto.

A direção de Branagh também se destaca na estética visual, com a maior parte do filme em preto e branco, representando a memória, enquanto cenas específicas, como os momentos em que Buddy e sua família assistem a filmes no cinema, são apresentadas em cores. Esses momentos coloridos trazem um sentimento de maravilhamento, enfatizando o papel do cinema como uma fuga e uma fonte de inspiração para o jovem Buddy.

Apesar da atmosfera pesada ao redor, o filme é marcado por pequenas descobertas e um tom de esperança. Buddy observa o amor ao seu redor: o carinho entre seus pais e os momentos com seus avós servem como exemplo do que significa amar e proteger aqueles que são importantes. Branagh inclui uma cena terna em que o avô relembra como conheceu a avó, mostrando o que é o amor duradouro. Esses detalhes íntimos são o que realmente tocam o coração.

Alguns elementos do filme, como a personagem Moira, amiga de Buddy, poderiam ser mais desenvolvidos, pois acabam parecendo meros artifícios de roteiro. Além disso, o uso frequente de músicas de Van Morrison é eficiente, mas, em certos momentos, exagerado. Esses pequenos deslizes, porém, não diminuem o impacto emocional da narrativa e o encanto que Belfast proporciona ao espectador.

Belfast emociona justamente por ser uma homenagem honesta e apaixonada de Branagh a uma época que o moldou profundamente. Ele consegue capturar, de forma tocante e acessível, as alegrias e tristezas de uma infância vivida sob a sombra do conflito. É, sem dúvida, um dos filmes mais emocionantes de 2021.

Com um toque de saudade, Belfast não é apenas um olhar para o passado de uma cidade em crise, mas uma celebração dos laços que mantêm uma família unida em meio às adversidades. É o filme mais pessoal de Branagh, e o resultado é uma narrativa que, apesar dos horrores ao redor, ainda consegue tocar o coração e inspirar.

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AUTOR

Felipe Fornari

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