Marcelo Botta entrega um conjunto onde, no que se diz técnico, impecável. No que toca o coração, verdadeiro.
Betânia é uma celebração rica da cultura maranhense e da festa do Bumba Meu Boi. A musicalidade da obra se entrelaça ao roteiro, contando a história junto as imagens e tornando o conjunto poético e folclórico, especialmente com a forte presença dos cantos e da percussão.

“Como pode uma duna mudar o curso de um rio?”. Esse é o questionamento de uma parteira dos Lençóis, e também a metáfora perfeita para a trajetória de Betânia: alguém que viu novas vidas chegarem enquanto outras partiam, vítimas do sal, da seca e da falta de infraestrutura. Entre essas perdas, destaca-se a filha caçula, deixando para trás o esposo, Tonhão (Caçula Rodrigues), e o filho pequeno, Antonio Filho (Ulysses Azevedo), que brilham nas cenas do filme.
A personagem Betânia é cheia de camadas: uma avó determinada a manter o neto estudando; uma viúva ainda processando o luto pela perda do esposo; uma moradora dos Lençóis Maranhenses que precisa deixar para trás seu lar e todas as memórias nele guardadas. Ela ama a beleza dos Lençóis, mas também sofre com a dureza de viver em um paraíso natural. Refém da beleza cruel das dunas, da salinização e da escassez de recursos de infraestrutura.

Interpretada com muita beleza e sensibilidade por Diana Mattos, Betânia é uma mulher marcada pela saudade, mas que se recusa a permitir que sua filha mais velha, genro e netos deixem de acreditar em um futuro melhor. Assim como os próprios Lençóis, sua história passa por épocas de cheia e de seca. Mas, mesmo na seca, os jardins floridos servem como lembrete de que a beleza da vida resiste aos altos e baixos.




