Bicho Monstro

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"Bicho Monstro": Realismo fantástico e mitos do sul do Brasil

O filme gaúcho Bicho Monstro, do cineasta de Campo Bom (RS) Germano de Oliveira, que esteve na 48ª Mostra de Cinema de São Paulo e foi premiado no Festival de Gramado, oferece uma experiência cinematográfica bem peculiar. A obra, filmada em locações no Rio Grande do Sul, mergulha em uma lenda popular da região, a do Thiltapes, para criar uma narrativa de realismo fantástico que explora medos e dilemas pessoais.

O diretor se inspirou no realismo fantástico e em sua familiaridade com os vilarejos interioranos. Da junção desses elementos veio o Thiltapes, o pássaro fantasioso referenciado em áreas de imigração alemã. Essa é uma lenda muito contada na região, que tentar explorar um pouco essas diferentes versões que esse mito pode assumir. As cidades gaúchas de Santa Maria do Herval e Morro Reuter foram os cenários para o longa.

Na trama, em um vilarejo rural de colonização alemã, a pequena Ana assiste a uma peça sobre a história do Thiltapes, um perigoso animal que vive na mata cuja forma real ninguém conhece. Duzentos anos antes, um botanista que escreve sobre a região ouve falar sobre esse mesmo animal. As histórias se intercalam, ambos em uma obcecada busca pelo Thiltapes imaginário, ao mesmo tempo em que encaram seus próprios demônios: o debilitado botanista ávido por uma descoberta que justifique sua viagem e Ana intrigada com seu pai, suspeito de ter cometido um crime brutal contra a vaca de um vizinho.

A principal força do filme reside na sua originalidade ao resgatar essa figura mitológica pouco conhecida fora do folclore local de colonização alemã. Essa abordagem traz frescor e identidade à produção.

A beleza visual do filme, que capta a paisagem rural da região de colonização alemã, é um dos aspectos mais bem sucedidos. A performance da atriz mirim Kamilly Wagner é convincente, assim como a presença de Araci Esteves, que traz qualidade à produção. A fotografia de Bruno Polidoro, premiada em Gramado, é um ponto alto, capturando com maestria a atmosfera e a paisagem rural do interior gaúcho.

No entanto, a estrutura narrativa, que alterna entre duas linhas do tempo – a história de uma menina no presente e a de um botânico no passado – é confusa. As transições nem sempre são fluidas, e a conexão entre os personagens e os “monstros” que eles enfrentam internamente pode não ser clara para o público. Na parte técnica, problemas com o áudio podem atrapalhar a imersão na história.

A narrativa parece usar a lenda do monstro como uma metáfora para algo mais profundo, explorando temas como o mistério, o medo do desconhecido e as relações entre as lendas e a vida real. A dupla linha do tempo oferece uma perspectiva interessante sobre como as histórias e mitos se perpetuam e se transformam ao longo do tempo.

O filme busca apresentar essa profusão de formas da mesma história e o contágio dessa narrativa através do tempo. A partir dela, tanto uma menina no presente, como um botanista no passado inventam seus próprios monstros a partir de seus conflitos pessoais.

Kamilly Wagner, Décio Worst e Carlos Alberto Klein integram o elenco de Bicho Monstro. Este é o primeiro longa-metragem de Oliveira como diretor, conhecido até então pelo seu trabalho de montagem em projetos como o filme 7 Prisioneiros, da Netflix, que lhe rendeu o prêmio de melhor montagem no IX Prêmio Platino do Cinema e do Audiovisual Ibero-americano. Ele também atuou como montador do longa Tinta Bruta (2018) e da série Boca a Boca (2020).

A produção é realizada pela Casa de Cinema de Porto Alegre e Vulcana Cinema, em coprodução com a Avante Filmes. A distribuição é feita pelas empresas Boulevard Filmes e Vitrine Filmes, e o projeto conta com financiamento do Fumproarte e do Fundo Setorial do Audiovisual.

No geral, Bicho Monstro é um filme que demonstra ambição em sua proposta de explorar o realismo fantástico e as raízes culturais do sul do Brasil. Para quem aprecia obras autorais e com forte identidade regional, o filme pode ser uma experiência instigante. Entretanto, sua narrativa não linear e por vezes irregular exige paciência e uma leitura atenta por parte do espectador.

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