Sobreviventes, produção luso-brasileira, é o último filme do diretor português José Barahona, rodado antes de ele falecer em 2024. O filme apresenta uma parceria com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, frequentemente publicado no Brasil. O filme traz uma espécie de fabulação utópica sobre o colonialismo e a escravidão, assim como as maneiras que as pessoas se relacionam em situações de confinamento.

E se um navio, repleto de escravizados recém comprados por uma portuguesa que vive no Brasil, além de padres, marinheiros e pessoas da alta sociedade, naufragasse com todo mundo dentro? E se vários desses seres humanos – peculiares cada um a seu modo – fosse parar em uma ilha, quais as chances de diálogos? A sobrevivência a um naufrágio não é um tema particularmente raro no cinema e na literatura, porém rende bons exercícios para imaginarmos um mundo fora das regras que, muitas vezes, justificamos serem parte de uma “vida em sociedade”. Desde, pelo menos, a empreitada de Robinson Crusoé, no começo do século XVIII, já temos ideia dos problemas causados por homens brancos naufragados diante da natureza e do Outro. Em Sobreviventes, a dupla de escritores joga com a única possibilidade de (não) diálogo entre pessoas escravizadas e brancas, essas últimas representantes do clero, da classe trabalhadora e dos senhores.
Na primeira parte de Sobreviventes temos algumas pessoas caídas à beira de uma praia, aos poucos elas vão acordando e percebemos que há uma mulher com um bom vestido, um padre e dois outros homens. Surge uma moça vindo pelo mar. Há as primeiras rusgas entre aquelas pessoas, acostumadas a exercer seus próprios poderes na sociedade fora dali. Porém, tudo se desestabiliza quando aparece João, um homem negro que a mulher mais velha chama de “mordomo”. Dão ordens ao homem e o amarram, em nome de evitar um certo “perigo” que ele possa apresentar enquanto dormem. Porém, é claro que nenhuma daquelas pessoas sabe viver sem João servindo a elas, e é com isso que ele, ciente de não estar em sociedade, percebe um pouco do poder que tem diante daqueles que não sabem nem se alimentar fora da lógica racista da escravidão. Aí temos a segunda parte do filme, com João virando o jogo e apresentando que as dinâmicas de poder são cambiantes dependendo da sociedade em que estamos inseridos. Isso se amplia quando esse grupo encontra um outro, formado apenas por escravizados. Ódio e desejo de vingança se misturam e temos um breve clímax, que culmina na parte final.

Apesar da belíssima fotografia de planos abertos, feita por Hugo Azevedo – lembrando, inclusive, alguns usos de luz e sombra de Terra Estrangeira, de Walter Salles, brincando com a ausência de cores e a variação do preto e do branco na pele das pessoas –, o filme opta pelas cenas fechadas (igualmente bonitas) e direção de atores que remetem ao teatro, especialmente pelo tipo de diálogo que os personagens travam entre si. É perceptível o anseio pela discussão e embate entre essas personagens e isso, provavelmente, é um sacada narrativa voltada mais para o público português do que para nós, brasileiros. O debate sério em torno da colonização e da escravidão é algo bastante recente naquele país e por isso, apesar da força, parece que o filme dá voltas em si mesmo, soando utópico e levemente debochado (poderia ser bem mais).





