Body

21.01.2016 │ 08:10

21.01.2016 │ 08:10

Cada pessoa tem um jeito de lidar com a perda. Algumas se ocupam rapidinho com seus afazeres e suas rotinas, tentando sufocar a dor. Outras ficam deprimidas e se isolam, não conseguindo lidar com os sentimentos. E outras procuram explicações, racionais ou não, para a perda, e se agarram a qualquer coisa para evitar a dor. Na dramédia polonesa Body, a diretora Malgorzata Szumowska (Elles), que ganhou o Urso de Prata em Berlim, nos apresenta três personagens e suas dificuldades em superar a morte de um familiar e continuar a vida de onde ela parou.
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Começamos o filme acompanhando um perito criminal (Janusz Gajos, de A Igualdade é Branca), que não tem nome, caminhando por entre árvores, com tempo chuvoso, chão lamacento. Neste cenário, ele se depara com um homem enforcado; quando os peritos cortam a corda que o segura, e começam a fazer as anotações necessárias, o homem supostamente morto se levanta e sai andando. Todo clima sério do filme cai por terra, e você fica só imaginando o que está por vir. Depois, o perito está em casa jantando com a filha, Olga (Justyna Suwala, revelada em Body), que deve ter por volta de vinte anos. De cara dá pra sentir que o clima ali não está muito bom. Mais tarde, ele a ouve vomitar no banheiro, mas não toma nenhuma atitude. Depois disso, conhecemos uma terceira personagem, Anna (Maja Ostaszewska, de O Pianista), que aparece tratando meninas com anorexia. Depois, acompanhamos Anna até sua casa, onde um enorme dogue alemão, Fredek, a espera para um passeio, jantar, assistir TV e dormir com ela. Estas três pessoas se conectam quando o perito leva Olga para a clínica onde Anna trabalha e a terapeuta, acreditando fazer contato com espíritos, convence o cético perito de que a esposa falecida dele, e mãe de Olga, quer fazer contato.
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O filme trata das dores do corpo e da alma dos três personagens principais: o perito perdeu a esposa e trabalha sem parar; Olga perdeu a mãe e está bulímica; Anna perdeu o filho e encontrou conforto em explicações sobrenaturais. Pai e filha, devido à dor mútua que não conseguem superar, não se suportam. Durante a terapia, Olga fala que sente raiva do pai e dá socos em um colchonete. E Anna parece estar segura de si e feliz com sua profissão e trabalho voluntário psicografando cartas de pessoas que faleceram e querem se comunicar com seus familiares, mas, ao se deparar com um casal se beijando na rua, fica parada em um cantinho espiando, desejosa e solitária.
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O melhor do filme é que os assuntos não são tratados de maneira excessivamente dramática: a convivência dos personagens e suas reações às desventuras do dia a dia são quase que engraçadas, mas mais como uma comédia de humor negro. Em uma cena, após fazer a perícia de um caso de assassinato de um recém-nascido que foi esquartejado, o perito almoça tranquilamente e com muito apetite. Depois, ao encontrar Olga desacordada no banheiro, ele a arrasta pelo chão e joga água em seu rosto, tudo com muita delicadeza e frieza. Seria engraçado se não fosse trágico, então você acaba sem saber direito se ri ou fica chocado.
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Body também fala muito da aceitação do corpo. Em contraste com as adolescentes bulímicas mostradas na clínica onde Anna trabalha, que apontam imagens de corpos desenhados na parede e falam de suas impressões negativas quanto a corpos maiores que os delas, uma outra cena mostra o perito e uma amante, uma senhora que dança alegremente pelo quarto, vestindo apenas uma calcinha (estilo daquelas que nossas avós vestem) e sem sutiã, mostrando seu corpo fora dos padrões socialmente aceitos, mas ela parece não dar a mínima e sem pudor algum dança alegremente, e corre pelo quarto, se exibindo para seu amante, senhora de si e de seu corpo.
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Apesar do ritmo do filme ser bem diferente do que a gente está acostumado (esses filmes americanos deixam a gente mal acostumado, querendo que aconteça uma virada, ou que alguma coisa pule na tela a cada dez minutos), o filme vale muito a pena. As histórias são tratadas com tempo, a fotografia do filme é lindíssima (têm uns ângulos de câmera e umas luzes sensacionais) e você vai gostar muito, do começo ao fim.
Nota:

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