Breaking the Ice

(2022) ‧ 1h42

01.09.2025

Entre o gelo e as expectativas em "Breaking the Ice"

No longa de estreia de Clara Stern, acompanhamos Mira (Alina Schaller), capitã do time de hóquei Dragons, dividida entre a paixão pelo esporte e as responsabilidades familiares. O futuro da vinícola da família, marcada pela presença frágil de um avô com demência e pela ausência de um irmão que abandonou tudo anos atrás, recai inteiramente sobre ela. Nesse ambiente de pressão constante, o gelo da quadra se torna o reflexo de um coração sobrecarregado.

A chegada de Theresa (Judith Altenberger) ao time muda a dinâmica de Mira. A nova colega exala leveza e espontaneidade, algo que contrasta diretamente com o jeito metódico da protagonista. O que inicialmente gera atrito logo se transforma em fascínio, revelando a possibilidade de um novo olhar para a vida e, sobretudo, para o amor. Essa colisão entre opostos — a disciplinada jogadora e a otimista destemida — é a faísca que move o filme.

Ao mesmo tempo, a reaparição de Paul (Tobias Resch), irmão de Mira, adiciona novas tensões. Ele a arrasta para um universo de festas e liberdade que desafia seus limites e desmonta, pouco a pouco, a armadura que ela construiu para sobreviver. Entre Theresa e Paul, Mira descobre que viver não precisa ser sinônimo de perfeição ou controle absoluto, e que se permitir falhar pode ser tão libertador quanto vencer uma partida.

Um dos pontos fortes de Breaking the Ice está na interpretação de Alina Schaller. A atriz confere profundidade à rigidez de Mira, evitando que o público a veja apenas como uma jovem fria ou arrogante. Pelo contrário, sua performance traz camadas de vulnerabilidade que deixam claro o peso das expectativas familiares e sociais que recaem sobre ela. É esse detalhe que torna a personagem envolvente e próxima de quem assiste.

Apesar disso, o hóquei — elemento central da trama — não alcança a mesma força dramática. As sequências no gelo, filmadas com excesso de movimentos de câmera, acabam mais caóticas do que emocionantes. A promessa de um campeonato decisivo não sustenta grandes tensões narrativas, mas ainda assim o esporte cumpre sua função simbólica: é dentro da arena que Mira espelha suas quedas e vitórias pessoais.

No fundo, Breaking the Ice funciona menos como um drama esportivo e mais como um estudo de personagem. O romance que desponta entre Mira e Theresa serve como contraponto luminoso às pressões da família e da vida adulta, abrindo espaço para um retrato delicado de amadurecimento. Clara Stern opta por um ritmo contemplativo, privilegiando silêncios e gestos em vez de grandes reviravoltas.

O resultado é um filme sensível, ainda que irregular em sua execução. Se não emociona pelo dinamismo das partidas, Breaking the Ice conquista pelo olhar atento às contradições de sua protagonista e pela forma como o amor se infiltra no gelo, derretendo, pouco a pouco, as barreiras erguidas contra a própria felicidade.

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AUTOR

Felipe Fornari

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