Dirigido pelas irmãs Delphine e Muriel Coulin, Brincando com Fogo é um daqueles filmes franceses marcados pela densidade, que alentam e inquietam a alma. Traz à tona um tema urgente e atual: a permanência das faíscas do fascismo no século XXI.
No centro da narrativa está Pierre (interpretado lindamente por Vincent Lindon, premiado como melhor ator no festival de Veneza), um operário viúvo que cria sozinho os dois filhos: Fus (Benjamin Voisin) e Louis (Stefan Crepon). A rotina simples e afetiva dessa pequena família se rompe quando Fus começa a se aproximar de grupos de extrema-direita, seduzido pelo discursos de ódio, ressentimento e pertencimento. O lar se transforma, então, em um campo de disputas ideológicas. O trio forma uma constelação afetiva e ideológica que traduz as tensões do nosso tempo.

O filme acerta na densidade e na complexidade, sem recorrer à caricaturas. Fus não é um vilão estereotipado, mas um jovem dividido entre a ternura e a revolta, entre a necessidade de pertencimento e o vazio de uma sociedade que não oferece muitas perspectivas. Ou mesmo o pai, Pierre, efetuoso e humano, que representa o esgotamento de uma geração que acreditou nos valores democráticos e agora assiste à sua erosão, impotente diante de um filho que se afasta de seus valores. Tudo isso repleto de delicadezas, sutilezas e silêncios.
Em um momento em que o extremismo e a intolerância ganham terreno em diversos países e realidades, o longa provoca um debate urgente sobre a ascensão da extrema-direita. O filósofo Theodor Adorno, que viveu nos tempos da segunda guerra mundial, alertou sobre os perigos objetivos do fascismo, entendendo-o não apenas como fato histórico, mas como possibilidade latente na cultura, no ódio e na indiferença cotidiana. O filme das irmãs Coulin parece ecoar esse alerta: o fascismo ressurge silenciosamente nas margens da vida comum.

Nessa direção, Brincando com Fogo é um filme sobre o perigo de esquecer, sobre como o fascismo sobrevive nas brechas da vida comum, e a força corrosiva do ódio socialmente legitimado. Uma obra emocionante e necessária, que complexifica o cotidiano e que inquieta, sem recorrer a estereótipos. Um lembrete contundente de que, como dizia Adorno, a verdadeira tarefa da educação é formar sujeitos capazes de resistir à barbárie.




