Chinatown

(1974) ‧ 2h10

"Chinatown": A cidade seca e os olhos molhados

Felipe Fornari

Em meio à secura do solo de Los Angeles e à aridez moral de seus poderosos, Chinatown se revela um dos maiores exemplares do cinema noir. O filme conduzido por Roman Polanski, com roteiro meticuloso de Robert Towne, entrega uma narrativa densa, intricada e pessimista — onde o detetive Jake Gittes, interpretado com precisão por Jack Nicholson, descobre que o submundo do crime pode estar mais próximo dos salões de poder do que das sombras dos becos.

Ambientado nos anos 1930, mas com um olhar cortante sobre a América dos anos 1970, Chinatown transforma a escassez de água em metáfora para algo ainda mais raro: a verdade. Gittes, que acredita estar investigando um caso banal de adultério, é tragado para dentro de uma rede de mentiras, manipulações e crimes encobertos por cifras e sobrenomes. Ao lado da misteriosa Evelyn Mulwray (Faye Dunaway), ele descobre que o controle da água — fonte de vida — é também instrumento de destruição.

A direção de Polanski aposta num ritmo pausado e sufocante, como se cada revelação precisasse ser arrancada à força, como os detalhes escabrosos de um trauma enterrado. Não há pressa em Chinatown, mas há urgência. Urgência em entender, em revelar, em impedir o pior. Mas talvez o pior já esteja feito. A mise-en-scène é rica, marcada por uma recriação precisa do período e pela fotografia em tons alaranjados, quase sempre banhados por um sol que não aquece — apenas seca e denuncia.

Jack Nicholson, em plena forma, encarna um detetive que se julga experiente, mas que aprende da pior maneira que ainda não viu de tudo. Sua transformação, da autoconfiança ao completo desamparo, é o verdadeiro arco dramático do filme. Faye Dunaway, por sua vez, interpreta Evelyn com uma aura trágica: uma mulher ao mesmo tempo vítima e cúmplice, guardando em seu passado um segredo que não poderia ser revelado de outra forma senão com lágrimas e sangue.

A figura de Noah Cross (John Huston), pai de Evelyn, representa o império da corrupção travestida de autoridade. Seu poder é absoluto, sua moral, inexistente. Ele encarna a noção mais assustadora do mal: aquele que se impõe com um sorriso e um sobrenome. O final, ao mesmo tempo chocante e inevitável, sela o destino dos personagens com uma frieza que ecoa muito além dos créditos finais. “Esqueça, Jake. É Chinatown.” A frase é menos um conselho e mais uma sentença.

Os simbolismos de Chinatown — água, óculos, espelhos — reforçam que a verdade está sempre distorcida, embaçada, filtrada por interesses que escapam à compreensão dos homens comuns. Assim como o detetive, o espectador é obrigado a questionar o que vê, o que ouve e o que entende. Nada é simples. Nada é justo. E no fim, todos saem feridos.

Ao transpor o noir clássico para uma linguagem um pouco mais moderna, Chinatown reafirma a força de um cinema que não tem medo do desespero. Um filme sombrio, elegante e dolorosamente real, cuja influência ressoa em décadas de thrillers posteriores — mas que jamais foi superado em sua precisão e brutalidade.

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