Demônio de Neon

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29.09.2016

Em Demônio de Neon, a beleza é efêmera — e pode se tornar indigesta

Uma estrutura narrativa clássica compreende uma abertura cativante, um desenvolvimento elaborado, um plot twist instigante e um desfecho satisfatório, que arremate a trama. Este princípio é amplamente adotado em livros, no teatro e também no cinema.

Em Demônio de Neon, nova obra de Nicolas Winding Refn, o prestigiado diretor de Drive, a evolução da estrutura narrativa, composta por três fases, é abrupta. A primeira fase é vibrante, não só nas cores, mas no modo como a protagonista se deslumbra com o universo que reverencia sua beleza. O segundo momento é mais sombrio, com emprego de meia-luz, na qual ela fica mais consciente do poder de sua beleza e passa a saborear isso. Já a terceira, quebra a estrutura do filme e assume aspectos de terror, fazendo uso de elementos grotescos. Esta ruptura, gerada pelo clímax, inevitavelmente faz o expectador se questionar: “WTF just happened?”

Na trama, a meiga Elle Fanning interpreta Jesse, uma aspirante modelo recém-chegada a Los Angeles. Sua beleza e frescor emanam de seu corpo juvenil e atraem a atenção de todos ao seu redor, despertando inveja nas demais modelos e sentimentos ainda mais intensos em Ruby (Jena Malone), uma maquiadora que empenha o seu talento para realçar a beleza, tanto dos vivos quanto dos mortos. Conforme a fragilidade e inocência de Jesse cedem espaço para sua crescente confiança, ficamos em dúvida se a inocência dela era autêntica ou se ela esteve sempre consciente da barganha que sua beleza lhe proporcionava.

Mas não é apenas a beleza de Jesse que hipnotiza os expectadores. Refn explora o universo das modelos e dos ensaios high fashion para compor um deleite visual, empregando cores e um amplo contraste em uma fotografia estupenda, em cenas impregnadas de semiótica e outras vezes vazias, presentes apenas como um recurso estilístico.

A parceria recorrente do diretor com o compositor Cliff Martinez mais uma vez dá certo; a trilha sonora é incrível e confere uma atmosfera soturna para o desenrolar da trama, ficando mais pungente conforme a tensão do enredo cresce. O elenco ainda conta com papéis pequenos de Christina Hendricks, outra que já colaborou com o diretor, e Keanu Reeves — ambos acrescentam pouco à trama.

Demônio de Neon não é um filme regular e não é para todos os públicos. Seu início eleva a expectativa do todo, e a desconstrução do belo surpreende os mais impressionáveis. Trata-se de uma fábula contemporânea sobre como a beleza e a inocência podem ser devoradas pela vaidade e o desejo.

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AUTOR

Atilio Comper Neto

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