Deuses da Peste

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"Deuses da Peste": O palco e o peso do real

Deuses da Peste nasce de uma inquietação inevitável: como representar um Brasil ainda ferido pela pandemia e pelo bolsonarismo sem recorrer ao documentário puro e simples? A resposta dos diretores Gabriela Luíza e Tiago Mata Machado foi se voltar ao teatro, à farsa e ao grotesco, buscando uma metáfora para a degradação de um país em crise. A proposta é ousada, mas o resultado, apesar de alguns lampejos criativos, acaba sendo irregular e pouco coeso.

O primeiro ato é, sem dúvida, o mais promissor. A apropriação de textos de Shakespeare, justapostos à realidade política brasileira, cria um jogo interessante de paralelos entre reis e governantes, tronos e instituições, coroas e poderes corroídos. É nesse momento que o filme encontra sua força: um retrato farsesco que consegue ser simultaneamente absurdo e lúcido, jogando luz sobre a sensação de caos que tomou conta do país.

No entanto, o segundo ato fragiliza a experiência. Ao deixar de lado a abstração e abraçar um discurso mais direto, Deuses da Peste perde parte do impacto. As citações literais a Lula, Bolsonaro e aos bordões mais conhecidos da era bolsonarista soam óbvias, quase redundantes, como se o filme subestimasse a memória recente do espectador. Esse excesso de literalidade reduz o espaço para interpretação e, consequentemente, esvazia a potência simbólica que vinha sendo construída.

Na reta final, o longa se recupera em termos visuais. A fotografia, que remete a quadros renascentistas, e o uso da luz teatral criam composições esteticamente marcantes, elevando a experiência. Ainda assim, a sensação é de um filme que oscila demais entre a metáfora bem articulada e a colagem imediatista, como se não tivesse total clareza sobre até onde deveria abraçar o delírio farsesco ou o discurso direto.

O elenco, por sua vez, merece destaque. Paulo Goya conduz sua performance com intensidade, transicionando entre o trágico e o cômico sem perder a energia. Renan Rovida e Carolina Castanho também se destacam pela entrega física e expressiva, capazes de sustentar a proposta experimental da direção. Mesmo assim, há momentos em que os atores parecem reféns de uma encenação excessivamente autoconsciente, que mais ilustra ideias do que constrói personagens vivos.

Deuses da Peste é, portanto, um filme que parece dividido entre dois impulsos: a vontade de transformar a dor em alegoria e o desejo de reiterar, com todas as letras, as feridas abertas do Brasil recente. Quando cede à tentação do didatismo, a obra enfraquece; quando se permite mergulhar na teatralidade desmedida, encontra sua voz. Essa oscilação constante deixa a sensação de um experimento relevante, mas que não chega a ser totalmente convincente.

Minha experiência com o longa foi de frustração e fascínio em doses iguais. Há uma ambição estética evidente e uma inquietação política necessária, mas o resultado me parece mais importante pelo gesto do que pela realização. Entre acertos e excessos, Deuses da Peste merece ser visto como parte do processo de um cinema que ainda busca a melhor forma de lidar com um trauma coletivo.

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