Há algo de fascinante na ambição de Do Sul, a Vingança. Situar um faroeste moderno na fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia é uma ideia potente, especialmente quando essa paisagem — tão rica em cultura, conflito e contraste — permanece praticamente ausente do imaginário cinematográfico nacional. A escolha de um protagonista forasteiro, um escritor em busca de histórias, também acena para uma metáfora auto-reflexiva: o artista em meio ao caos tentando capturar algo que faça sentido. Mas se a premissa desperta curiosidade, o desenvolvimento tropeça em quase todos os aspectos.
O filme até tenta estabelecer uma narrativa que una ação, crítica social e um humor excêntrico, mas sua estrutura desorganizada torna essa fusão difícil de acompanhar. A trama, que deveria ser uma espiral crescente de tensão, se dilui em sequências mal montadas e diálogos que muitas vezes beiram o involuntário. A sensação é de que a jornada do escritor Lauriano é tão desconexa quanto os cortes do filme. E por mais que a estética regional seja um trunfo visual, ela pouco ajuda quando falta clareza narrativa.

A montagem é, provavelmente, o maior entrave para o engajamento. Momentos que deveriam gerar suspense se resolvem de maneira abrupta, enquanto cenas sem propósito aparente se estendem por mais tempo do que o necessário. A alternância entre tons — do humor à violência — não é fluida, o que faz com que as transições soem artificiais. Em vez de um faroeste híbrido com identidade, Do Sul, a Vingança se assemelha a um zapping acidental entre gêneros e atmosferas.
As atuações tampouco ajudam. Em um elenco marcado por performances caricatas ou apáticas, ninguém consegue carregar a dramaticidade ou o carisma que a história exige. O protagonista parece mais perdido que imerso, o que afeta diretamente a nossa conexão com a história. Mesmo os personagens excêntricos, que poderiam trazer frescor ou comicidade à jornada, soam mal ensaiados ou subexplorados. Há tentativas de bordões, de ícones, mas nenhum se sustenta.
Ainda assim, é importante reconhecer o esforço de se produzir um longa inteiramente no Mato Grosso do Sul, com um orçamento modesto e sem a dependência de grandes centros. Há uma força simbólica nesse gesto, e isso tem valor. A fotografia, por exemplo, consegue capturar a vastidão da paisagem e traduzir o clima tenso da região com eficiência. A escolha da locação, sem dúvida, é um dos elementos mais bem resolvidos do filme.

Mas boas intenções e localização autêntica não bastam. Do Sul, a Vingança é um exemplo clássico de como ideias interessantes podem se perder na execução. Ao invés de trazer um novo olhar ao faroeste ou à produção regional, o filme se afasta da contundência ao optar por um roteiro frouxo, uma montagem errática e um tom indeciso. A obra parece querer dizer muito, mas acaba por dizer pouco — e de maneira confusa.
Falta ao filme o que sobra em projetos semelhantes, como Bacurau ou Medusa: um domínio formal que saiba alternar crítica, gênero e estilo com precisão. Ao final da jornada, Do Sul, a Vingança nos deixa com a impressão de uma travessia mal planejada — feita sem bússola, mas com muita vontade. E infelizmente, no cinema, vontade não é roteiro.






