Echo Valley

(2025) ‧ 1h44

05.06.2025

"Echo Valley": Laços de sangue e lama

Echo Valley parte de um ponto promissor: uma mãe solitária, marcada por perdas, vê sua vida pacata virar de cabeça para baixo com o retorno da filha problemática, coberta de sangue e envolvida em um crime que desafia os limites da moral e da lógica. Dirigido por Michael Pearce e com roteiro de Brad Ingelsby, criador de Mare of Easttown, o filme parece ter todos os ingredientes para um suspense psicológico denso e envolvente. Mas o que começa com tensão e expectativa se esvazia aos poucos em um emaranhado de situações forçadas e reviravoltas pouco convincentes.

Julianne Moore, como Kate, entrega uma atuação contida e dolorida. Vivendo em uma fazenda isolada na Pensilvânia, ela tenta reconstruir a vida após perdas seguidas: o fim do casamento e a morte da nova companheira. Seu mundo se resume a treinar cavalos e dar aulas de equitação. A chegada repentina de Claire, sua filha vivida por Sydney Sweeney, traz de volta os fantasmas de um passado mal resolvido — e mergulha ambas em um pesadelo criminal.

Claire sempre foi uma presença instável. Mimada, marcada pelo vício e pela instabilidade emocional, ela é o tipo de filha que suga toda a energia da mãe, sem oferecer nada em troca. Quando retorna coberta de sangue, o instinto de Kate é protegê-la a qualquer custo. O problema é que a trama não oferece base sólida para essa relação — Sweeney, apesar de talentosa, passa tempo demais fora de cena para que o laço entre as duas se torne palpável.

Ao entrar no mundo sombrio de Claire, Kate cruza o caminho de Jackie Lyman (Domhnall Gleeson), um traficante ameaçador que parece saído de um pesadelo. A tensão nas cenas em que os dois se confrontam é real, mas não suficiente para sustentar a narrativa. O roteiro investe em soluções drásticas, corpos escondidos e decisões moralmente duvidosas que testam a paciência de quem espera coerência dramática.

Há uma aura melancólica interessante, e o uso de locações, como o lago que serve de esconderijo para cadáveres, remete a filmes como Amar Foi Minha Ruína (1945) e Um Lugar ao Sol (1951). Mas a comparação para por aí: enquanto esses filmes exploram seus temas com profundidade, Echo Valley se entrega ao melodrama raso e a situações que beiram o inverossímil.

O elenco secundário, que conta com nomes como Fiona Shaw e Kyle MacLachlan, até tenta salvar algumas cenas, mas o filme não lhes dá espaço para brilhar. Tudo gira em torno da relação entre mãe e filha — e justamente esse elo acaba pouco desenvolvido. O resultado é um suspense que tenta ser íntimo e intenso, mas tropeça em sua própria ambição.

Echo Valley poderia ter sido um estudo poderoso sobre os limites do amor materno, mas se perde em um enredo que exige demais da boa vontade do espectador. Mesmo com atrizes talentosas à frente e uma atmosfera que prometia algo mais, o filme termina como um thriller frustrado: cheio de potencial, mas atolado em excessos.

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AUTOR

Felipe Fornari

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