Elle

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"Elle": Desejo, poder e ambiguidade

Felipe Fornari

Elle é um thriller psicológico que desafia expectativas desde sua chocante sequência inicial, recusando qualquer conforto narrativo ou emocional. Ao acompanhar Michèle, uma executiva implacável que decide não se comportar como uma vítima convencional após um ataque brutal, o filme estabelece um tom provocativo que guia toda a experiência: nada será simples, nem moralmente reconfortante. A frieza com que ela retoma sua rotina é desconcertante e serve como ponto de partida para um estudo de personagem profundamente incômodo.

Michèle administra sua vida pessoal com o mesmo controle rígido que aplica ao trabalho, e é justamente essa postura que torna suas reações imprevisíveis. Em vez de buscar amparo ou justiça institucional, ela assume uma postura calculada, quase clínica, diante do trauma. O suspense se constrói não apenas sobre a identidade do agressor, mas sobre as escolhas dela diante da ameaça constante, transformando a narrativa em um jogo psicológico onde o poder circula entre vítima e perseguidor de forma perturbadora.

O roteiro constrói um universo repleto de personagens e subtramas que orbitam a protagonista, reforçando a sensação de que sua vida já era um campo de tensões antes mesmo do ataque. Relações familiares disfuncionais, um filho imaturo, um ex-marido distante e envolvimentos amorosos complicados compõem um panorama de relações marcadas por disputas silenciosas de poder. Cada interação parece esconder um cálculo estratégico, evidenciando que o controle é a principal linguagem de Michèle.

Mais do que um suspense tradicional, Elle funciona como um ensaio sobre dinâmicas de dominação. Em todas as esferas, profissional, afetiva ou sexual, os personagens disputam posições de força, muitas vezes de forma sutil. O filme observa essas trocas com uma frieza quase científica, sugerindo que desejo, medo e autoridade frequentemente se entrelaçam de maneiras difíceis de separar. O resultado é uma obra que prefere provocar reflexão a oferecer respostas fáceis.

A abordagem de temas como consentimento e desejo é especialmente desconfortável, pois o filme rejeita leituras simplistas. Michèle é uma mulher que exerce plenamente sua sexualidade e autonomia, o que desestabiliza os homens ao seu redor e expõe inseguranças profundamente enraizadas. Ao explorar essas ambiguidades, Elle questiona convenções sociais sobre vítima, poder e agência, sem jamais suavizar o horror do evento inicial que desencadeia a trama.

No centro de tudo está a atuação magnética de Isabelle Huppert, que constrói uma protagonista enigmática e distante de qualquer sentimentalismo fácil. Sua interpretação se apoia em silêncios, olhares e pequenas inflexões que mantêm o espectador constantemente em alerta. É uma personagem que não busca empatia imediata, mas fascínio e inquietação, sustentando o filme com uma presença que oscila entre vulnerabilidade e ameaça.

Ao final, Elle se revela uma experiência provocadora e intelectualmente desafiadora, mais interessada em explorar zonas cinzentas do comportamento humano do que em oferecer catarse. A obra confronta o público com suas próprias expectativas sobre moralidade, trauma e desejo, transformando a jornada de Michèle em um estudo desconcertante sobre como o poder pode se manifestar nas formas mais íntimas e contraditórias das relações humanas.

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