Elon Não Acredita na Morte

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28.04.2017

Se a intenção era nos levar a questionamentos, "Elon Não Acredita na Morte" consegue

A ampliação do acesso às tecnologias de produção cinematográfica vem possibilitando o surgimento de novas narrativas audiovisuais. O cinema brasileiro não fica para trás. Temos sido frequentemente bombardeados com inúmeras estreias nacionais de curtas e longas que somam diversas qualidades. Entretanto, alguns [quer dizer, muitos] não conseguem se sustentar na medida em que exploram demais um aspecto específico. É o caso de Elon Não Acredita na Morte, um filme construído à base de cenas subjetivas e pouco desenvolvidas que abusa da duração.

Produções confusas e sem muitos diálogos são questionáveis. Neste filme, vemos um homem transtornado à procura de sua mulher aparentemente desaparecida, mas que pode nunca ter existido, a não ser na própria mente do personagem. Elon (Rômulo Braga) é percebido, desde a primeira cena, como desequilibrado emocionalmente. Não conseguimos identificar nem entender com solidez as causas dos seus problemas, dando certa liberdade perceptiva ao espectador, o que muitas vezes pode levar à fuga das expectativas de recepção e efeito criadas pela direção.

Na jornada, o protagonista vai à fábrica onde supostamente a esposa trabalha, passa pelo inusitado local de serviço da cunhada e chega a fazer boletim de ocorrência na delegacia para retratar o sumiço. Porém, a ambiguidade de possibilidades que criamos em nossa mente no decorrer da história [ele é ou não louco?] segue do início ao fim sem qualquer resolução. Na era dos desfechos surpreendentes, “Elon Não Acredita na Morte” peca com seu deficiente enredo e cansativo propósito reflexivo colocados de forma descartável em mais de uma hora de vídeo. Sem falar das ridículas cenas de sexo oral explícito e personagens coadjuvantes que ninguém entende o motivo de estarem ali. E Madalena (Clara Choveaux), a procurada que nem mesmo é encontrada por quem assiste, é real? Eis a questão indesatável.

Entretanto, a intenção do diretor mineiro estreante Ricardo Alves Jr. é executada com algum acerto. Cenas quase sempre escuras, enquadramentos que muito lembram o estilo found footage e bons efeitos sonoros cumprem a tarefa de levar o espectador para a angustiante e claustrofóbica vida do personagem-título, formando o ar de mistério e suspense em torno da incessante busca pela mulher.

Se a intenção era nos levar a questionamentos, o filme consegue. Mas garanto que não os esperados pela produção. O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? Caso você esteja disposto a enfrentar o desafio de responder cada uma das questões, prepare sua resiliência e bom filme!

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AUTOR

Diego Patrick

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