Em um Piscar de Olhos

(2026) ‧ 1h34

Entre eras não conectadas

Felipe Fornari

Em Um Piscar de Olhos se propõe a ser uma ambiciosa jornada pela história da existência humana, do passado pré-histórico a um futuro distante no espaço, conectando três narrativas separadas pelo tempo, mas unidas por temas como sobrevivência, amor e persistência. A ideia é instigante, sobretudo por tentar condensar milênios de evolução em um único arco temático, mas o resultado final acaba mais confuso do que grandioso.

A linha mais remota, que acompanha uma família de Neandertais lutando para sobreviver após ser expulsa de seu território, é, paradoxalmente, a mais eficaz. Sem depender de diálogos compreensíveis, o segmento se apoia na fisicalidade dos corpos e na precariedade do ambiente para transmitir a fragilidade da vida naquele período. Há momentos de genuína tensão e uma curiosidade quase documental sobre aquele cotidiano rudimentar, que sugerem um potencial dramático que o restante do filme não consegue alcançar.

Já o segmento ambientado no presente, centrado em uma antropóloga que estuda restos de civilizações proto-humanas, tenta estabelecer uma ponte intelectual entre passado e futuro, mas tropeça em diálogos pouco inspirados e em relações interpessoais que parecem surgir sem o devido desenvolvimento. A conexão romântica com o estudante de pós-graduação, por exemplo, surge de forma apressada e pouco convincente, soando mais como um dispositivo de roteiro do que um vínculo emocional orgânico.

No futuro, a trama se desloca para uma espaçonave onde uma piloto e um computador sensível enfrentam uma doença que ameaça a produção de oxigênio. Essa linha narrativa carrega ideias interessantes sobre dependência tecnológica e solidão em ambientes extremos, mas também sofre com um excesso de explicações superficiais e soluções rápidas demais para conflitos potencialmente complexos. O que deveria soar filosófico acaba se aproximando de uma ficção científica excessivamente didática.

O principal problema está na costura entre essas três histórias. O filme alterna entre épocas com transições bruscas, sem que haja um elo narrativo forte o suficiente para justificar essa estrutura fragmentada. A intenção de mostrar a continuidade da vida ao longo dos séculos é clara, mas a execução carece de unidade emocional, fazendo com que cada segmento pareça pertencer a um filme diferente.

Há, ainda, um tom excessivamente solene que não se sustenta diante de escolhas visuais e dramáticas por vezes involuntariamente artificiais. Em certos momentos, a encenação lembra mais uma reconstituição televisiva do que uma epopeia cinematográfica, o que dilui o impacto de temas que deveriam provocar assombro e reflexão sobre a trajetória humana.

Apesar da ambição conceitual e de algumas imagens que evocam a persistência da vida em contextos hostis, Em Um Piscar de Olhos nunca encontra um eixo dramático consistente que unifique suas linhas temporais. O resultado é um filme curioso em suas intenções, mas dramaticamente raso, que observa milênios de existência sem conseguir transformá-los em uma experiência verdadeiramente envolvente.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS