Era Uma Vez Minha Mãe é daqueles dramas construídos para emocionar através de pequenos gestos, olhares e sacrifícios silenciosos. Inspirado na história real de Roland Perez, o longa acompanha a relação intensa entre um filho nascido com uma deficiência física e uma mãe determinada a desafiar qualquer limite imposto pela sociedade ou pela medicina. O resultado é um filme caloroso, sentimental e, em muitos momentos, genuinamente tocante.
A trama começa em 1963, quando Esther dá à luz Roland e se recusa a aceitar o destino que médicos e pessoas ao redor projetam para ele. Convencida de que o filho terá uma vida plena, ela transforma essa promessa em missão pessoal. Desde cedo, o longa deixa claro que não se trata apenas de uma história sobre superação física, mas também sobre o impacto que o amor incondicional pode ter na construção da identidade de alguém.

Leïla Bekhti carrega boa parte da força emocional de Era Uma Vez Minha Mãe. Sua Esther é intensa, teimosa, amorosa e, muitas vezes, sufocante. O filme acerta ao não transformá-la em uma figura idealizada. Há momentos em que sua obsessão pelo futuro do filho ultrapassa limites razoáveis, criando situações desconfortáveis que tornam a personagem mais humana e interessante. O amor dela nunca parece falso, mas frequentemente vem acompanhado de controle e culpa.
Quando Roland cresce, o filme muda de foco e passa a explorar seu desejo de independência. Essa transição funciona justamente porque o roteiro entende que crescer também significa romper certos vínculos, mesmo quando eles nasceram do afeto. Jonathan Cohen interpreta bem esse conflito entre gratidão e necessidade de liberdade, especialmente nas cenas em que Roland tenta finalmente assumir as rédeas da própria vida.
Como muitas cinebiografias que atravessam décadas, Era Uma Vez Minha Mãe sofre um pouco com a necessidade de condensar muitos acontecimentos em pouco tempo. Algumas passagens parecem rápidas demais, enquanto certos saltos temporais dificultam a percepção da passagem dos anos. Ainda assim, o filme mantém coesão emocional suficiente para que a jornada nunca perca seu impacto afetivo.

Existe também uma delicadeza na forma como a narrativa aborda a deficiência de Roland sem transformá-lo apenas em símbolo de inspiração. O longa está mais interessado em discutir relações familiares, expectativas e autonomia do que em construir um discurso simplista sobre vitória pessoal. Isso faz diferença, principalmente porque evita cair em sentimentalismos excessivamente manipulativos em boa parte do tempo.
Ao final, Era Uma Vez Minha Mãe funciona menos como uma grande cinebiografia tradicional e mais como um retrato íntimo de uma relação marcada por amor, dependência e sacrifício. Mesmo com algumas limitações estruturais, o filme encontra força na sinceridade de seus personagens e na humanidade com que trata seus conflitos. É uma obra que emociona justamente por entender que amar alguém profundamente também pode significar aprender a deixá-lo seguir sozinho.







