Fanon é um filme que exige escuta sem pressa, pois traz para o cinema uma visão sobre a vida e atividades do filósofo e psiquiatra caribenho Frantz Fanon.

O longa tem sucesso em mostrar as principais ideias que Fanon defendia, como a descolonização da mente, sua luta revolucionária contra o colonialismo, a construção de um novo humanismo, o combate ao racismo, a ocupação por parte de pessoas pretas em locais considerados apenas para brancos. Fica claro mesmo para aqueles que não conhecem o homem distinto que o personagem principal foi, que ele não era um homem comum. A paixão do filósofo Fanon pela vida, pelas ideias que defendia, principalmente aquelas relacionadas a liberdade, e a igualdade de direitos, foi (muito bem) traduzida em cada um dos gestos do ator Alexandre Bouyer, sob orientação do diretor Jean-Claude Barny.
Por outro lado, o filme poderia trazer uma pouco mais da entrega intensa do personagem principal para a trama. As pautas defendidas por ele, diferente de outros filmes mais intensos e enérgicos, ficaram ligeiramente contidas, por vezes até sem uma trilha sonora que acompanhasse a urgência retratada. Uma escolha que não comprometeu a relevância do conteúdo, mas talvez tenha afetado o envolvimento.

Mesmo assim, a narrativa se constrói muito mais pelo que é dito do que pelo que é mostrado, e isso funciona especialmente quando o foco está nas ideias, ainda mais quando são temas que continuam tão atuais. Há uma atenção em organizar esse pensamento de forma acessível, quase como um convite para quem ainda não teve contato com sua obra. Nesse sentido, o filme cumpre um papel importante de ponte.
No fim, talvez o maior valor de Fanon esteja fora da tela, ou seja, naquilo que ele provoca depois que termina. É um filme necessário, ainda mais em um presente como o de agora, em que os mesmos temas ressurgem e a necessidade de debate, de combate a opressão e de recusa a voltar a como era antes é tão imprescindível. Mais do que impactar pelo formato, Fanon se destaca pela importância do que diz. E, às vezes, isso já é motivo suficiente para existir.








