Perto do Sol é Mais Claro

(2024) ‧ 1h45

07.05.2026

Entre a homenagem e a idealização

Perto do Sol é Mais Claro parte de um ponto emocional potente: o luto na terceira idade e a tentativa de reconstruir a própria vida quando tudo parece já ter sido vivido. Acompanhando um protagonista de 85 anos, o filme busca discutir envelhecimento, desejo e continuidade, apostando na ideia de que ainda há muito a ser experimentado, independentemente da idade.

Essa proposta, por si só, carrega um potencial dramático rico, mas o longa encontra dificuldades em definir exatamente que história quer contar. Há uma constante oscilação entre ficção e homenagem pessoal, o que impede que a narrativa se sustente com autonomia. O protagonista parece, ao mesmo tempo, um personagem e uma extensão direta de quem o interpreta, criando uma ambiguidade que nunca se resolve completamente.

Essa indefinição impacta diretamente o envolvimento do espectador. Em vez de mergulhar nas contradições do envelhecimento, o filme opta por suavizá-las, construindo uma realidade onde os obstáculos surgem apenas para serem rapidamente contornados. Coincidências convenientes e soluções fáceis acabam diluindo a força de qualquer conflito, tornando a jornada mais confortável do que instigante.

Ainda assim, é possível perceber o carinho que atravessa o projeto. Existe uma intenção clara de celebrar a vitalidade, o desejo e a criatividade na velhice, mostrando um homem que se recusa a se apagar. Momentos mais leves, especialmente quando o humor surge de situações cotidianas, conseguem transmitir alguma autenticidade e aproximar o espectador dessa proposta.

O problema é que, ao evitar zonas de desconforto, o filme também evita profundidade. Questões importantes, como solidão, fragilidade física ou inseguranças emocionais, aparecem apenas de forma superficial, como se qualquer sombra ameaçasse o tom otimista que o longa deseja preservar. O resultado é um retrato que parece mais idealizado do que vivido.

Tecnicamente, essa irregularidade também se faz presente. Há oscilações visíveis na condução estética, com escolhas que por vezes soam improvisadas ou pouco lapidadas, especialmente no uso do som e na construção visual de determinadas cenas. Além disso, o excesso de verbalização, com o protagonista explicando o que sente ou pensa, reduz o espaço para que as imagens falem por si.

No fim, Perto do Sol é Mais Claro funciona melhor como gesto afetivo do que como obra plenamente realizada. Há sinceridade e boas intenções, mas elas não são suficientes para sustentar uma narrativa consistente. Ao tentar abraçar simultaneamente a realidade e a idealização, o filme acaba preso entre dois caminhos — e não percorre nenhum deles com a força que poderia.

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AUTOR

Felipe Fornari

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