Filhos do Mangue é um filme que mergulha nas contradições e nas forças vivas de uma comunidade ribeirinha no litoral do Rio Grande do Norte, que sobrevive das atividades da pesca e do mangue. Com uma fotografia que capta a beleza crua dos manguezais e o cotidiano local, a narrativa articula com sensibilidade a densidade política de temas como memória, justiça comunitária, desigualdade de gênero e resistência coletiva.

A trama acompanha um homem da vila, Pedro Chão, interpretado por Felipe Camargo, que, após perder a memória, é acusado de roubar um dinheiro pertencente à comunidade. Incapaz de lembrar sequer da própria filha, ele se vê no centro de um julgamento conduzido pelos próprios moradores, uma forma de autogestão da vida e da justiça local, que evidencia tanto os vínculos comunitários quanto os conflitos latentes.
As relações de cooperação que sustentam a comunidade também são atravessadas por violências estruturais. A figura do protagonista, embora fragilizada pela perda de memória, simboliza um corpo sobre o qual se projetam culpas e frustrações coletivas. Antes do esquecimento, Pedro Chão reproduzia comportamentos agressivos e machistas, revelando as marcas profundas de um patriarcado naturalizado no cotidiano da vila.

É nesse cenário que se destaca a resistência das mulheres, uma das dimensões mais expressivas do filme. Elas constroem redes de cuidado, proteção e enfrentamento ao machismo que rompem o silêncio e dão visibilidade à força feminina. Sua atuação coletiva desafia a lógica da violência e aponta caminhos de reinvenção e dignidade.
Dirigido por Eliane Caffé e inspirado na obra Capitão, de Sergio Prado, Filhos do Mangue vai além de um retrato regional. Trata-se de uma obra que lança luz sobre um Brasil profundo, com suas belezas, feridas e esperanças. Esperanças depositadas em modos de vida comunitários que, ainda que permeados por tensões e contradições, buscam respeitar a natureza e cultivar formas alternativas de justiça, existência, convivência e resistência.




