Filme assistido durante o 15º Olhar de Cinema.
Futuro Futuro é daqueles filmes que não se preocupam em oferecer respostas fáceis. Desde os primeiros minutos, a obra de Davi Pretto mergulha o espectador em um universo estranho, desconfortável e fragmentado, onde a memória se tornou um bem escasso e a tecnologia já não representa progresso, mas apenas mais uma camada de alienação. É uma ficção científica profundamente brasileira, construída menos sobre efeitos grandiosos e mais sobre sensações de perda, abandono e desalento.
Acompanhamos K, um homem que desperta sem referências sobre quem é ou qual seu lugar naquele mundo. Sua jornada funciona como um guia para um cenário social em colapso, marcado pela desigualdade extrema, pela precarização das relações humanas e pela substituição da experiência real por simulacros produzidos por inteligência artificial. O protagonista não busca salvar o mundo nem descobrir uma conspiração secreta; tenta apenas compreender uma realidade que parece escapar constantemente de qualquer lógica.

Um dos maiores méritos de Futuro Futuro está na construção visual desse universo. O contraste entre ambientes degradados e imagens artificiais em tons de vermelho cria uma atmosfera perturbadora. As sequências ligadas às tecnologias de reconstrução da memória possuem uma qualidade quase onírica, ao mesmo tempo fascinante e inquietante. O filme encontra imagens poderosas para traduzir medos bastante contemporâneos, especialmente aqueles relacionados à dependência tecnológica e à erosão da experiência humana.
Também chama atenção a confiança que o roteiro deposita no espectador. Pretto evita longas explicações e se recusa a organizar tudo em uma narrativa convencional. Muitas informações surgem de maneira indireta, enquanto símbolos e metáforas permanecem abertos à interpretação. Essa escolha torna a experiência mais desafiadora, mas também mais rica, permitindo que cada espectador estabeleça suas próprias conexões com os temas propostos.
Ao mesmo tempo, essa liberdade narrativa cobra um preço. Algumas passagens parecem excessivamente enigmáticas, dificultando a conexão emocional com determinados personagens ou situações. Há momentos em que a abstração se sobrepõe ao drama, tornando certas ideias mais interessantes intelectualmente do que propriamente envolventes. Nem todos os símbolos alcançam a mesma força, e algumas imagens permanecem mais confusas do que provocativas.

Ainda assim, o filme encontra grande potência em sua dimensão existencial. Por trás dos dispositivos tecnológicos, das memórias artificiais e das paisagens distópicas, existe uma reflexão amarga sobre solidão, identidade e pertencimento. O verdadeiro horror de Futuro Futuro não está em máquinas dominando pessoas, mas na sensação de que os indivíduos já perderam a capacidade de construir vínculos significativos em um mundo cada vez mais fragmentado.
Mesmo quando tropeça em seu próprio experimentalismo, Futuro Futuro permanece uma obra ousada e instigante. É um filme que assume riscos, desafia convenções e utiliza a ficção científica para refletir sobre ansiedades muito presentes na sociedade contemporânea. Talvez não agrade quem busca uma narrativa mais direta, mas recompensa aqueles dispostos a se perder em suas imagens, seus mistérios e suas inquietações. O resultado é uma experiência imperfeita, porém fascinante, que permanece ecoando muito depois dos créditos finais.







