Greice

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15.07.2024

Em “Greice”, quem assiste tem que encarar as noções de verdade e mentira que uma obra de ficção pode suscitar em uma história de mirabolâncias e muitas voltas.

Quando assistimos um filme, em que momento deslocamos nossa noção de realidade para adentrar a proposta narrativa ou experimental? Quando a chave vira na nossa construção de fabulação? Greice, filme do brasileiro Leonardo Mouramateus, brinca com as maneiras que lidamos com a construção de histórias tanto enquanto pessoas que assistem, como aquelas que contam. No filme, a protagonista, homônima ao título, é uma estudante brasileira de belas artes, em Portugal. A jovem cearense passa por todo tipo de perrengue como estudante imigrante – desde renovação de visto até questões de dinheiro –, saindo das situações de maneiras inventivas, mas que podem fazer oscilar as nossas noções de mentira e manejo.

Depois de percorrermos os corredores enigmáticos e escuros de um museu lusitano, encaramos uma festa e barricada no lugar: uma história se abre. Uma voz, dada como masculina, diz que não quer ver as fotos de uma estátua e sim que a interlocutora conte sobre ela. Greice abre a sua estrutura fotográfica solar com um dia de muito calor em Lisboa, Greice e sua companheira de apartamento Lis (Laura Learth) querem encontrar uma piscina para se refrescar. Já sabemos que a protagonista está com problemas com o visto de estudante e percebemos uma tensão em relação ao espaço que ocupa. As duas encontram uma mansão e propõem uma história para o residente, Afonso (Mauro Soares), sobre elas serem produtoras de uma artista e que estão procurando locações. Afonso aceita a história e a narrativa segue no ritmo das situações desenroladas e suas resoluções. Uso a palavra “propor”, em vez de “inventar”, porque é importante pensarmos sobre a ideia de mentira depender de quem, para quem e como se conta. Em dado momento, uma personagem diz que “Greice é amiga das circunstâncias”, um tipo de pessoa que tem uma espécie de ética para a sobrevivência nos lugares que ocupa. Ela se desvela diante de quem assiste sempre tentando resolver ocorrências com o que ela tem em mãos, o que pode incomodar quem prefere uma narrativa que deixe nítido o que é fabulação e o que pode ser “realidade”. Ou seja, a velha discussão entre verdade e mentira, só que em Greice, em um nível metalinguístico e não apenas no enredo.

O filme, que estreou no Brasil no festival Olhar de Cinema, tem a seu favor a condução do próprio elenco de maneira autônoma e como o diretor dá liberdade para que se entrosem. Essa autonomia na atuação demonstra que o cinema brasileiro – ou luso-brasileiro, já que o diretor hoje vive em Portugal e traz essa espécie de contaminação para o filme – tem seu próprio manejo em contar histórias, o que ficou bastante evidente durante o debate de uma parte do elenco com o público no o festival. Questões de performance, representação, noções de cópia e original e, também, que tipo de narrativas são criadas para serem as oficiais, permeiam Greice sem didatismo, o que pode levar, inclusive, uma parte do público a nem perceber que está lidando com tudo isso e apenas se deixar envolver pelas aventuras da protagonista.

Apesar de carregar o nome da protagonista, Greice também é um filme circunstancial – aberto a vários blocos narrativos envolvendo personagens protagonistas –, justamente porque ela circula e se relaciona com as pessoas. Desde as histórias mais microscópicas, como o calor, os flertes, a gravação de um videoclipe e a queima de uma obra de arte, levam à montagem da grande história forjada por Greice e Mouramateus. Com certeza, um filme que pode ser visto de vários prismas e que carrega uma força ainda maior com o protagonismo negro em uma história de trânsito e manutenção da própria narrativa. A questão da imigração, por exemplo, de pertencimento e construção de identidade, também oscila entre possibilidades muito sérias de leitura, assim como uma simples chanchada divertida. Cabe a quem assiste encarar a vertigem de lidar com as mentiras e verdades que a ficção pode forjar.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Emanuela Siqueira

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