Labirinto dos Garotos Perdidos, dirigido por Matheus Marchetti, é uma das gratas surpresas do cinema independente nacional. Mesclando terror queer, comédia ácida, suspense e fantasia urbana, o longa — exibido inicialmente na Mostra de São Paulo e distribuído comercialmente pela Filmicca — funciona como uma “fábula contemporânea” subvertida e mergulhada no erotismo.
A história acompanha Miguel (Giuliano Garutti), um jovem do interior que viaja a São Paulo para prestar vestibular. Hospedado na casa de uma prima, ele resolve explorar a noite paulistana por meio de aplicativos de relacionamento.
O que deveria ser uma noite comum de flertes logo se transforma em um verdadeiro “labirinto”. Miguel se perde na imensidão e na penumbra da metrópole, engatando em uma sucessão de encontros sexuais progressivamente bizarros, teatrais e absurdos. Para deixar a atmosfera ainda mais tensa, as notícias e os sussurros urbanos avisam: um assassino misterioso está espreitando os garotos da cidade nas sombras.

O maior trunfo de Marchetti é a identidade visual e o tom do filme. A produção não se apoia no realismo; pelo contrário, assume uma lógica de sonho (ou pesadelo).
Há um flerte constante com o horror de atmosfera. A cinematografia abusa de espelhos, sombras, neons e reflexos, lembrando a opulência visual de clássicos como Suspiria.
Embora flerte com o perigo, o filme é surpreendentemente hilário. Ele satiriza os rituais modernos de encontros gays, dinâmicas de fetiche e a superficialidade urbana. Os diálogos são rápidos, irônicos e carregados de sarcasmo, lembrando, em alguns momentos, o deboche de séries como Girls.
As figuras que cruzam o caminho de Miguel são caricatas e magnéticas: desde um jovem obsessivo por pepinos até um rapaz rico e mimado (vivido pelo próprio diretor).

Por trás da bizarrice e do suspense, Labirinto dos Garotos Perdidos é, no fundo, um ritual de passagem e autodescoberta.
A jornada de Miguel evoca a ideia de que, para se encontrar e amadurecer na própria sexualidade e identidade, às vezes é preciso se perder completamente, enfrentando os próprios medos, desejos reprimidos e os “monstros” (literais ou metafóricos) da carne.
Existe um caráter quase ritualístico onde o prazer e o perigo andam de mãos dadas. Na lógica do filme, a noite de São Paulo acolhe os garotos em um presente eterno, onde as consequências parecem distantes e o perigo é apenas parte do pacote de se estar vivo.
Apesar de pequenos tropeços no ritmo narrativo em seu terço final — normais em obras que experimentam tanto com a lógica do absurdo —, o filme triunfa por sua coragem. É uma obra incômoda, instigante, visualmente sedutora e que quebra tabus com muita personalidade e deboche. Uma pérola do terror e da fantasia queer brasileira.








