Ladrões

(2025) ‧ 1h47

24.08.2025

Caos, sangue esobrevivência em "Ladrões"

Ladrões é o tipo de filme que mergulha o espectador em um turbilhão de violência e absurdo, mas sem perder de vista a ironia que move sua narrativa. Dirigido por Darren Aronofsky (Cisne Negro), o longa adapta o romance de Charlie Huston e transforma o que poderia ser apenas mais uma história de gângsteres em um espetáculo caótico, sangrento e surpreendentemente divertido.

No centro de tudo está Hank Thompson (Austin Butler), um ex-astro do beisebol que viu seu futuro promissor desmoronar ainda na juventude. Agora, ele é apenas um bartender em Nova York, tentando levar uma vida comum ao lado de sua namorada Yvonne (Zoë Kravitz), que, além de ser a voz da razão em sua vida, também se revela fundamental nos momentos de maior desespero. A tranquilidade, porém, acaba quando Hank aceita cuidar do gato de seu vizinho Russ (Matt Smith), sem imaginar que essa simples tarefa o jogaria no meio de uma guerra entre mafiosos, policiais corruptos e criminosos excêntricos.

Aronofsky se diverte ao orquestrar esse espetáculo de desgraças. A direção tem a energia anárquica de seus trabalhos mais ousados, mas sem perder o apelo popular de um thriller cheio de reviravoltas. O humor ácido aparece como um contraponto à violência gráfica, criando um clima em que o riso desconfortável se mistura à tensão crescente. É como se o diretor estivesse sempre flertando com o excesso, mas sabendo exatamente até onde pode ir.

Austin Butler entrega aqui uma de suas atuações mais interessantes. Seu Hank é um sujeito doce, mas atolado em mágoas, marcado por frustrações e vícios, tentando sobreviver em um universo que parece conspirar contra ele. É fácil torcer por sua resistência, mesmo quando ele toma decisões bastante questionáveis. Ao seu redor, coadjuvantes carismáticos roubam cenas: Regina King como a policial perspicaz e ambígua, Vincent D’Onofrio e Liev Schreiber como irmãos impiedosos.

O filme também brilha nos detalhes que evocam o fim dos anos 1990: uma jukebox tocando Smash Mouth, programas como Jerry Springer na TV, celulares de flip-top com minutos racionados. Essa ambientação não apenas dá um charme nostálgico à trama, mas também reforça a sensação de estar diante de um crime movie que poderia ter saído da mente de Quentin Tarantino em seu auge. É um universo em que nada parece confiável e a violência pode explodir a qualquer segundo.

Há, contudo, um aspecto que pode causar estranhamento: a forma como Hank supera certos traumas graves sem grande elaboração emocional. Essa escolha narrativa pode ser lida tanto como um defeito de desenvolvimento quanto como uma aposta no tom de comédia sombria. De qualquer forma, não chega a comprometer a intensidade da jornada, ainda que levante dúvidas sobre o equilíbrio entre drama e humor.

No fim, Ladrões é um espetáculo de caos e sobrevivência, que acerta ao mesclar violência, humor ácido e personagens memoráveis. É o tipo de filme que parece sempre prestes a sair dos trilhos, mas encontra justamente nessa imprevisibilidade sua maior força. Assim como Hank, o longa pode estar cercado por ameaças por todos os lados, mas guarda “um belo swing” que garante impacto e diversão até o último minuto.

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AUTOR

Felipe Fornari

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