Livros Restantes

(2025) ‧ 1h44

04.12.2025

"Livros Restantes": Os capítulos que ainda faltam escrever

Livros Restantes é um daqueles filmes que começam pequenos, quase tímidos, mas que aos poucos revelam um universo emocional vasto. A diretora Marcia Paraiso (Lua em Sagitário) acompanha a protagonista Ana Catarina — vivida com delicadeza por Denise Fraga — em um momento de virada radical: aos 50+, prestes a deixar a comunidade pesqueira onde viveu toda a vida para recomeçar em Portugal. O ponto de partida é simples, quase prosaico: desapegar de cinco livros que sobreviveram ao processo de mudança. Mas a simplicidade é apenas aparente, porque cada volume carrega não apenas uma dedicatória, mas um pedaço de quem Ana foi.

Ao reencontrar as pessoas que lhe deram esses livros, Ana revisita sentimentos, cicatrizes e versões antigas de si mesma. E é justamente nesse movimento — feito de lembranças que doem e outras que aquecem — que o filme encontra sua força. Paraiso constrói esses reencontros com uma sensibilidade que evita o melodrama, apostando em gestos, silêncios e olhares que dizem mais que qualquer discurso. Há uma autenticidade palpável nas conversas, nos constrangimentos, no afeto que persiste e no que ficou pelo caminho.

O grande mérito de Livros Restantes é compreender que a maturidade não chega com respostas prontas. O filme trata da invisibilidade feminina, mas também do desejo, da possibilidade de recomeçar e das rachaduras que insistimos em esconder. Em vez de transformar Ana em símbolo ou tese, a obra a enxerga como pessoa: contraditória, perdida, corajosa e assustada. Esse equilíbrio entre empatia e honestidade faz com que a jornada da protagonista ecoe para além da experiência individual dela.

Visualmente, o longa abraça o tempo e os ambientes com um carinho especial. A Barra da Lagoa, com sua rotina de pesca e vento salgado, contrasta com a expectativa de uma nova vida em Portugal, e ambos os espaços refletem o estado interno da personagem. A fotografia, liderada por uma equipe majoritariamente feminina, reforça essa intimidade: luz natural, cores suaves e um cuidado evidente com cada espaço que moldou a vida de Ana.

Nem tudo, porém, funciona plenamente. Em alguns momentos, o filme estende demais certas situações, tornando o ritmo irregular. Há um excesso de explicações ou metáforas ditas em voz alta, quando o próprio gesto já seria suficiente. Ainda assim, mesmo quando tropeça, Livros Restantes nunca perde de vista seu propósito emocional — e isso sustenta o longa.

É impossível ignorar o simbolismo dos livros como fios que conectam passado e futuro. Paraiso utiliza essa metáfora de maneira sensível, mostrando que objetos têm o poder de guardar o que a memória às vezes insiste em apagar. Cada entrega é também uma devolução de algo que não pertence mais a Ana, e ao mesmo tempo um resgate daquilo que ela precisa levar adiante — mesmo que só dentro de si.

No conjunto, Livros Restantes é um filme caloroso, honesto e por vezes profundamente bonito. Com delicadezas suficientes para tocar e falhas que não comprometem a experiência, a obra forma um retrato frágil e verdadeiro de uma mulher em reconstrução. Um capítulo importante — e ainda aberto — da vida de Ana Catarina, e um lembrete de que recomeçar também exige escolher quais histórias estamos prontos para deixar para trás.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

Gata em Teto de Zinco Quente

Gata em Teto de Zinco Quente

Baseado na peça vencedora do Pulitzer de Tennessee Williams, Gata em Teto de Zinco Quente é um drama intenso que se passa em uma grande fazenda do sul dos Estados Unidos. O filme acompanha a tensa reunião de uma família marcada por ressentimentos, ambições e segredos....

A Hora da Estrela

A Hora da Estrela

Baseado na obra de Clarice Lispector, o filme de Suzana Amaral A Hora da Estrela volta às telas restaurado em versão 4K. Ele conta a história de Macabéa, uma jovem de 19 anos que chega à cidade grande em busca da felicidade. É um grande presente ver novamente um dos...

Ne Zha 2: O Renascer da Alma

Ne Zha 2: O Renascer da Alma

Ne Zha 2: O Renascer da Alma chega com a responsabilidade de dar continuidade a um dos maiores fenômenos da animação chinesa dos últimos anos, e o resultado não decepciona. Jiaozi, o autodidata que já havia surpreendido no primeiro filme, retorna ainda mais confiante,...