Yellow Cake

(2026) ‧ 1h37

Entre mosquitos, minérios e o fim do mundo

Felipe Fornari

Yellow Cake é daqueles filmes que parecem surgir de um lugar improvável, combinando ficção científica, sátira política, horror ecológico e regionalismo brasileiro em uma mistura que dificilmente poderia funcionar em mãos menos ousadas. Dirigido por Tiago Melo, o longa parte de uma premissa delirante, utilizar urânio para combater o mosquito da dengue, e a transforma em uma narrativa que oscila entre o absurdo e o assustadoramente plausível.

Ambientado no sertão paraibano, o filme encontra força justamente em sua capacidade de conectar problemas locais a questões globais. A epidemia de dengue, a exploração de recursos naturais, a influência estrangeira sobre decisões nacionais e a desconfiança da população diante das instituições aparecem entrelaçadas em uma trama que nunca abandona sua identidade nordestina. O resultado é um retrato singular de um Brasil frequentemente ignorado pelo cinema de gênero.

No centro da história está Rubia, interpretada por Rejane Faria com uma combinação convincente de inteligência, fragilidade e determinação. A personagem funciona como elo entre dois mundos: de um lado, a ciência e suas promessas de progresso; do outro, uma comunidade marcada por décadas de exploração e promessas não cumpridas. Seu conflito interno se torna cada vez mais relevante à medida que o experimento foge do controle.

Visualmente, Yellow Cake também surpreende. A fotografia explora a paisagem árida da região com criatividade, transformando minas, cavernas e terrenos secos em cenários dignos de uma ficção científica apocalíptica. Os laboratórios iluminados por tons vibrantes contrastam com o ambiente natural, criando uma atmosfera estranha e inquietante que reforça a sensação de que algo está profundamente errado.

Ao mesmo tempo, o filme encontra espaço para o humor. A sátira permeia praticamente todas as relações apresentadas, desde os burocratas que conduzem o projeto até os representantes estrangeiros que enxergam a região apenas como um laboratório a céu aberto. Algumas das melhores cenas surgem justamente desse choque entre o conhecimento popular e a arrogância tecnocrática, revelando um olhar crítico bastante afiado.

Nem todas as ideias recebem o mesmo grau de desenvolvimento. Em alguns momentos, a narrativa acumula tantas camadas temáticas que certas discussões acabam ficando superficiais. Há passagens em que o roteiro parece mais interessado em apresentar novas alegorias do que em aprofundar as que já estavam funcionando, o que gera uma sensação ocasional de dispersão.

Ainda assim, Yellow Cake compensa suas irregularidades com personalidade de sobra. É um filme inventivo, provocador e visualmente marcante, que utiliza os códigos da ficção científica para discutir medos muito reais do presente. Entre enxames de mosquitos, resíduos radioativos e desconfianças históricas, Tiago Melo constrói uma obra estranha e fascinante, capaz de divertir enquanto lança perguntas incômodas sobre ciência, poder e sobrevivência.

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