Malês

(2024) ‧ 1h54

25.09.2025

"Malês": Entre o desejo e o resultado

Malês é um filme que carrega em si uma missão histórica: dar visibilidade a um dos levantes mais importantes contra a escravidão no Brasil, ocorrido em 1835, em Salvador. Liderada por africanos muçulmanos, a Revolta dos Malês foi um episódio de resistência e coragem que marcou a trajetória da população negra no país. Ao levar esse momento para as telas, Antônio Pitanga concretiza um sonho antigo, transformando o projeto também em um gesto pessoal e político.

A proposta do longa é grandiosa, mas a execução encontra obstáculos que comprometem a experiência. O filme assume uma estrutura coral, dando voz a diversos personagens, mas não consegue equilibrar as narrativas de forma consistente. Muitas vezes algumas trajetórias são abandonadas por longos períodos, dificultando o envolvimento emocional com cada arco e enfraquecendo o senso de coletividade que deveria sustentar o longa.

Outro ponto que pesa é o excesso de diálogos expositivos. Em diversas cenas, os personagens anunciam informações óbvias apenas para situar o espectador, o que acaba soando artificial e esvaziando a naturalidade das interações. O tom declamado de algumas falas transforma momentos que poderiam ser tensos ou emocionantes em passagens didáticas, quase como se o filme estivesse preocupado em ensinar mais do que em dramatizar.

Do ponto de vista técnico, há escolhas que também fragilizam a imersão. A fotografia digital, clara e moderna, não transporta o público para a época retratada, enquanto a direção de arte tenta compensar com figurinos e objetos de época que, embora cuidadosos, parecem destoar do restante. Em algumas sequências de batalha, a câmera trêmula busca criar dinamismo, mas evidencia as limitações de encenação e de recursos de produção.

Ainda assim, há momentos de força. Antonio Pitanga empresta intensidade à figura de Pacífico Licutan, e Camila Pitanga consegue transmitir emoção em suas breves aparições. Heraldo de Deus também se destaca, entregando uma atuação que foge do excesso teatral presente em outras interpretações. Nessas passagens, percebe-se a potência que o filme poderia alcançar se houvesse maior equilíbrio entre forma e conteúdo.

O longa também oscila entre ser um retrato histórico e uma obra de caráter quase pedagógico. Em alguns momentos, parece preocupado em homenagear os Malês de forma épica, mas em outros assume contornos simplistas, com frases de efeito e situações pouco desenvolvidas. O resultado é um filme que tem valor simbólico inegável, mas que não consegue traduzir em tela toda a complexidade e a riqueza do movimento que retrata.

No fim, Malês acaba sendo mais importante pelo gesto do que pelo resultado. É louvável que um episódio tão pouco representado do nosso passado chegue ao cinema, mas a obra não alcança a densidade e a sofisticação necessárias para marcar de fato a memória do espectador. O filme deixa a sensação de que a história que conta merecia um tratamento mais cuidadoso — ainda que a paixão e a determinação de Pitanga sejam perceptíveis em cada quadro.

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AUTOR

Felipe Fornari

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