Memórias de um Verão

(2024) ‧ 1h30

04.12.2025

A conexão com a natureza como um caminho para a superação das dores e a busca pelo afeto

Memórias de um Verão, dirigido por Charlie McDowell, é uma adaptação do romance homônimo da escritora finlandesa Tove Jansson, no qual acompanhamos a relação profunda e sensível de uma avó (Glenn Close, recordista de indicações ao Oscar, oito ao total, porém sem nenhuma conquista) e sua neta Sophia (Emily Matthews). Com apenas nove anos, Sophia possui uma rara capacidade emocional de enfrentar questões profundas como solidão, melancolia, culpa e luto, sempre acompanhada pela força da natureza.

O roteiro é construído a partir da (re)construção dos vínculos familiares entre Sophia, sua avó e seu pai (Anders Danielsen Lie, dos filmes Oslo, 31 de Agosto e A Pior Pessoa do Mundo, ambos de Joachim Trier), após uma perda importante em suas vidas.

Esse processo de cura coletiva se dá no verão que passam juntos na casa da família, em uma pequena ilha isolada na Finlândia. A ilha não é apenas um cenário paradisíaco, mas um verdadeiro personagem que, por meio de sua natureza hipnotizante e enigmática, suas belezas, sons e formas, serve como uma espécie de apoio emocional, auxiliando na superação dos traumas familiares e na construção de laços profundos de amor e empatia.

Através de uma atmosfera bucólica e contemplativa, que caracteriza o ambiente ao redor da casa, avó e neta passam a construir suas conexões de afeto por meio de conversas sobre a vida, sem enfrentar diretamente as dores e tristezas decorrentes da recente perda familiar.

Ao longo do verão, em contato com as belezas naturais da ilha, as feridas emocionais da família cicatrizam e os laços se fortalecem. A adaptação torna-se uma experiência única e imersiva para o público, pois entre a delicadeza e o abandono, o universo da autora se impõe pela beleza e humanidade de seus personagens e pela simbiose com a natureza.

O filme é construído de forma a estabelecer uma proximidade com o público, convocando-nos a sentir as dores e alegrias dos personagens, inclusive sentimentos que preferimos ocultar. A adaptação se sustenta pela leveza e pelo silêncio, mas sobretudo pelo olhar e pelos elementos sensoriais, na construção lenta dos afetos, como quem contempla o mar, a tempestade e a finitude da vida, até formar uma pequena coleção de memórias vividas, mas, acima de tudo, sentidas em compasso de espera, encontros e despedidas.

Glenn Close interpreta uma avó cuja entrega se baseia no silêncio e na profunda honestidade. Sua personagem é sustentada pela força do mar e pela trajetória de uma vida inteira marcada por ausências. Anders Danielsen Lie vive um pai que, ao longo do filme, vai se reencontrando com sua vida e com sua filha, permitindo-se considerar a possibilidade de um futuro mais doce e menos embrutecido. São encontros que acompanhamos como quem observa o crescimento de uma árvore que florescerá apenas no seu tempo, sem pressa nem urgência.

A fotografia de Surla Brandth Grovlen transforma a ilha em uma atmosfera que transita entre o real e o idealizado. O mar representa os sentimentos dos personagens: medos, angústias, frustrações ou redescobrimentos. A narrativa, em alguns momentos, pode se estender um pouco além do necessário, como a brisa do mar, exigindo do espectador uma compreensão mais ampla, sem comprometer sua beleza e profundidade.

Quando nossas vidas precisam ser reescritas, a única forma de começar é reconhecer que não estamos sozinhos e que existimos por meio dos afetos que construímos e das experiências que compartilhamos.

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AUTOR

Daniela de Oliveira Pires

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