Mother’s Baby

(2025) ‧ 1h48

24.02.2026

“Mother’s Baby” redireciona o clássico recurso da dúvida no cinema de gênero para condições mentais pós-parto e o que se espera de uma mãe

Não é novidade que a chamada “loucura feminina” seja um dos temas mais abordados desde o começo do cinema, em especial no cinema de gênero. Ideias de histeria e loucura em mulheres – lembrando, por exemplo, que a ideia que perpassa a prática de gaslighting surgiu em um filme de 1944, À Meia Luz (Gaslight), de George Cukor – sempre foram temas muito bem engendrados no cinema realizado por homens. Porém, realizadoras também foram mostrando outras facetas da loucura, em especial trazendo a marca da dúvida para os enredos. Afinal, loucas pelos olhos de quem e segundo qual narrativa?

A diretora austríaca Johanna Moder, em Mother’s Baby, propõe um thriller que dialoga de perto com o já conhecido cinema daquele país – como Boa noite, Mamãe, da dupla Veronika Franz e Severin Fiala –, apresentando uma história de maternidade que flerta com a dúvida aterrorizadora de quem assiste. Um recurso clássico do cinema de gênero, o de não conseguir tatear quem é vilão/louco da história, aqui é contrastado com a depressão pós-parto e o período complexo do puerpério. Tudo isso somado com uma história obscura de uma clínica de fertilidade para lá de esquisita.

Julia (Marie Leuenberger) e Georg (Hans Löw) estão entre os meados de 30 e 40 anos, não têm filhos – aparentemente por uma questão de infertilidade – e procuram a clínica do Dr. Vilfort (Claes Bang), que promete operar milagres. Julia engravida, porém acontece uma situação durante o parto, da qual não acessamos enquanto espectadoras, e a criança é tirada às pressas do quarto. Em um primeiro momento, a situação apresentada é de que o cordão umbilical ficou enrolado no pescoço do bebê, deixando ele sem oxigênio e indo direto para a UTI. Porém, no outro dia a criança retorna para o quarto da mãe tranquilamente e pronta para ir para casa. A partir de então, Julia passa a não reconhecer o bebê como seu filho, achando seu choro e os modos completamente estranhos. Mas como ela pode apostar nisso? Isso é uma paranoia? Um desencadeamento da situação traumática do parto? Depressão? Todas essas perguntas passam pela nossa cabeça de pessoas que estão apenas assistindo.

Além da narrativa de thriller que Mother’s Baby propõe – que realmente nos deixa ressabiadas em muitos momentos –, o filme também expõe a dúvida que a sociedade impõe a uma mulher que recém pariu. A todo momento as pessoas pedem que ela tenha calma, insinuam e insistem que ela deve estar errada, duvidam até de seus sentimentos. Portanto, mais do que apontar uma situação de suspense que beira ao terror, o filme dialoga com representações de maternidade e o que se espera de uma mãe com um bebê.

Outro recurso que a realizadora traz, junto com a roteirista Arne Kohlweyer, é a inserção de imagens narrativas, quase metafóricas, que compõem o filme como uma obra literária. Por exemplo, Julia é maestrina, e a música – a vibração, a coordenação diante de uma orquestra – é parte intrínseca do filme, que também trabalha com uma trilha sonora enxuta, sabendo fazer uso da música clássica em momentos pertinentes. A outra imagem é a presença do anfíbio axolote, uma espécie em vias de extinção, que surge em Mother’s Baby como uma presença dialógica com a condição da mulher enlouquecida diante de seu próprio filhote, tratando aqui em termos biológicos e pensando na metamorfose que um corpo passa diante da gravidez. Por isso mesmo, Mother’s Baby não se preocupa em nos dar respostas, mas sim em expor a dúvida, seja como recurso narrativo ou condição de existência fora das telas.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Emanuela Siqueira

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