Pedro Almodóvar já flertava com o melodrama, o exagero e o absurdo em seus filmes anteriores, mas foi com Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos que ele encontrou uma forma de destilar tudo isso num estilo único, vibrante e inconfundível. A comédia, que marcou a consagração internacional do diretor espanhol, é uma montanha-russa emocional que gira em torno de mulheres intensas, homens ausentes e um gazpacho dopado. E é impossível desgrudar os olhos da tela.
O fio condutor da trama é Pepa, interpretada com perfeição por Carmen Maura, uma atriz de dublagem que é abandonada pelo amante e tenta, a todo custo, entender o porquê. Ao seu redor, uma série de acontecimentos absurdos acontece, incluindo uma amiga envolvida sem saber com um terrorista xiita, uma ex-mulher armada e sedenta por vingança, e um apartamento que se transforma em palco de confissões, perseguições e colapsos emocionais. Tudo isso embalado em cores vibrantes, figurinos chamativos e uma estética que beira o kitsch — no melhor sentido possível.

Almodóvar constrói um universo que beira o surreal, mas nunca perde o toque humano. Em meio às situações rocambolescas, suas personagens são movidas por sentimentos reais: medo, abandono, paixão, desespero. O diretor, que mistura referências de telenovelas, cinema clássico e cultura pop, conduz o caos com precisão cirúrgica, pulando entre a comédia, o drama e o nonsense com uma fluidez impressionante.
Há algo de deliciosamente teatral em Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, não apenas pelo tom exagerado das atuações ou pelos cenários estilizados, mas pela forma como tudo parece prestes a explodir a qualquer momento. É um filme onde telefones não param de tocar, portas batem com força, pessoas choram, correm, gritam — e, ainda assim, há uma lógica interna, uma coreografia precisa por trás do aparente descontrole.
Um dos grandes triunfos do longa está em sua habilidade de transformar o melodrama em comédia sem nunca ridicularizar suas personagens. Pepa, mesmo à beira de um colapso, nunca é caricata. Seu sofrimento é legítimo, suas reações são compreensíveis, e sua força — mesmo quando camuflada por uma aparente fragilidade — é o que conduz toda a narrativa. Almodóvar permite que essas mulheres sejam absurdas e, ao mesmo tempo, profundamente reais.

Tecnicamente, o filme é um deleite: a direção de arte é explosiva, o figurino é um espetáculo à parte e a trilha sonora (recheada de influências latinas e dramáticas) pontua com ironia e sensibilidade cada cena. E é impossível esquecer do táxi decorado como se fosse um salão de espera kitsch, ou do momento em que todos desmaiam graças ao gazpacho batizado — imagens que se tornam icônicas de imediato.
Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos é uma comédia sobre o desespero — mas uma comédia generosa, que compreende o drama das suas personagens e o transforma em arte. É um filme onde tudo pode acontecer — e acontece —, mas sem perder o charme, a elegância e a empatia. Um Almodóvar em estado puro: desbocado, elegante, sentimental e deliciosamente exagerado.





