O Castigo, uma coprodução chilena e argentina, é um drama psicológico do diretor chileno Matías Bize, que consolida sua filmografia centrada em temáticas subjetivas que levam o espectador a experiências psicológicas densas e profundas.
Como forma de estabelecer uma punição diante da falta de educação de Lucas (Santiago Urbina), seu filho de sete anos, Ana, interpretada de forma magistral pela atriz chilena Antonia Zegers, toma uma atitude inesperada: deixa a criança à beira da estrada, próxima a uma vasta floresta chilena, e continua dirigindo por exatos dois minutos, com a concordância de seu marido, Mateo (Néstor Cantillana).
Passam-se apenas cento e vinte segundos até que os pais retornem para resgatá-lo, na certeza de que a lição havia sido aprendida. Porém, ao chegarem à floresta, já não avistam o menino. Este é o ponto de partida da narrativa e de um dilema ético que leva o espectador a questionar, julgar e até condenar, mesmo que precocemente, a atitude da mãe, vista como uma autêntica criminosa, inclusive pela polícia.

Aqui tem início propriamente o castigo, que aparentemente seria apenas para o filho, mas se estende por toda a família. Entre o suposto crime de abandono e o castigo como medida educativa, os pais de Lucas se encontram em uma situação limítrofe, pois, na dinâmica que passa a se estabelecer durante a busca desesperada pelo filho, o tensionamento entre eles oscila entre a cooperação e o conflito.
O castigo dos pais é acompanhado em tempo real, com sequências longas e sem cortes, ao longo dos oitenta minutos de duração. Filmado em uma única tomada, com a câmera em compasso de atenção e espera constante, a dinâmica se rompe pela agitação que emerge do desespero dos pais, fazendo da floresta mais do que uma locação: ela se torna um verdadeiro personagem que, diante de sua magnitude, é cúmplice dos dilemas e angústias dos pais de Lucas.
Diante da falta de contato com o filho, a personagem de Antonia Zegers começa a se revelar em toda sua complexidade e aparente contradição. Ela oscila entre a calma, a aflição e o desespero. Aqui reside o ponto de virada da narrativa, quando a sociedade patriarcal é colocada na berlinda de forma sutil, autêntica e contundente.

Ana, tomada pela emoção daquela situação extrema, expõe as mazelas de uma cultura que oprime, inviabiliza e condiciona o agir, o sentir e o pensar das mulheres. O vazio e o esquecimento de si mesma diante do desaparecimento de um filho não são, necessariamente, consequência do amor ou do desejo. Vale salientar que esse momento de catarse pessoal acontece nos quatro minutos finais da exibição, deixando as questões em aberto em uma verdadeira espiral psicológica. O roteiro, escrito por Coral Cruz, é potente, direto e visceral, mas, ao mesmo tempo, cruel e dilacerante.
Precisamos falar sobre o respeito pelas escolhas das mulheres em uma sociedade que silencia nossas vozes e tira nossas vidas. Aqui se elabora uma espécie de manifesto pela escolha livre, pela liberdade como princípio norteador das nossas ações. O final nos convoca a pensar que é caminhando o caminho, ou percorrendo a estrada, que se defende, de forma incondicional, o direito de existir das mulheres.




