O Drama Menstrual de Jane Austen

(2024) ‧ 0h13

09.02.2024

"O Drama Menstrual de Jane Austen": Quando o romance encontra o tabu

Em O Drama Menstrual de Jane Austen, a reverência à obra de Jane Austen anda de mãos dadas com a sátira. Ambientado na Inglaterra de 1813, o curta parte de um pedido de casamento interrompido por um acontecimento tão natural quanto socialmente silenciado: a menstruação. A partir desse choque entre romance e ignorância masculina, o filme constrói uma comédia inteligente que dialoga com o espírito de Austen sem nunca parecer uma simples paródia.

O jogo de palavras do título já indica o tom da obra, ao brincar com o conceito clássico de “drama de época” e o transformar em comentário direto sobre o corpo feminino. O roteiro imagina, com deliciosa ousadia, como seriam as histórias de Austen se houvesse espaço para tratar abertamente de temas considerados impróprios em seu tempo. O resultado é um texto espirituoso, repleto de diálogos rápidos e observações mordazes, que atualiza o olhar sem trair a essência do material que homenageia.

A trama gira em torno de Estrogenia Talbot, vivida por Julia Aks, e do desinformado Sr. Dickley, cuja educação refinada não incluiu absolutamente nada sobre o funcionamento do corpo feminino. A confusão causada pelo sangue no vestido da jovem desencadeia uma sucessão de situações absurdas, potencializadas pela presença das irmãs de Estrogenia e da criada, personagens que ampliam o humor e reforçam o comentário social por trás da farsa.

O elenco está completamente afinado com a proposta. Cada fala é entregue com precisão cômica e um leve exagero consciente, que dialoga com o tom teatral das adaptações clássicas de Austen. A química entre Aks e Lachlan Ta’iuma Hannemann é fundamental para que o curta funcione, equilibrando a caricatura com um inesperado calor humano, que impede os personagens de se tornarem apenas tipos cômicos.

Visualmente e narrativamente, O Drama Menstrual de Jane Austen demonstra um controle admirável de ritmo e encenação, combinando humor físico e verbal com elegância. Ao transformar um tema historicamente tabu em motor de comédia, o curta não apenas diverte, mas também faz um comentário afiado sobre ignorância, gênero e tradição. É fácil imaginar que a própria Austen teria se divertido com essa releitura irreverente — e talvez se perguntado, como nós, por que demorou tanto para ser feita.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS

Meu Pé Esquerdo

Meu Pé Esquerdo

Em Meu Pé Esquerdo, Jim Sheridan conta uma história de superação, mas sem a pieguice que costuma acompanhar o gênero. O filme acompanha a vida real de Christy Brown (Daniel Day-Lewis), um homem nascido com paralisia cerebral em uma família pobre de Dublin, que...

Gandhi

Gandhi

Para muitos, Richard Attenborough pode ser mais conhecido como o John Hammond de Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros. E, embora a maior parte da carreira de Attenborough tenha sido como ator, ele começou a se aventurar como diretor a partir da década de 1960 e,...

Horas de Tormenta

Horas de Tormenta

Horas de Tormenta, dirigido por Herman Shumlin e adaptado da peça de Lillian Hellman, é um drama político ambientado nos anos 1940 que aborda a luta contra o fascismo através de uma narrativa intimista. O filme segue Kurt Muller (Paul Lukas), um engenheiro alemão...