O Homem que Sussurra

(2026) ‧ 1h51

Sussurros que não provocam arrepios

Felipe Fornari

Existe uma diferença considerável entre construir mistério e simplesmente esconder informações do espectador. O Homem que Sussurra parece nunca compreender essa distinção. Adaptando o romance de Alex North, James Ashcroft reúne desaparecimentos de crianças, traumas familiares, um assassino do passado e segredos enterrados durante décadas na tentativa de construir um thriller sombrio. Os ingredientes prometem uma narrativa perturbadora, especialmente porque o desaparecimento do filho de Tom Kennedy obriga o escritor a revisitar uma história que também envolve seu próprio pai. O problema é que quase nada dessa combinação produz a tensão esperada.

Tom já atravessa o luto quando precisa enfrentar um pesadelo ainda maior. Interpretado por Adam Scott, ele perdeu recentemente a esposa e tenta criar sozinho Jake, de oito anos, enquanto o garoto manifesta o sofrimento de maneiras que o pai não consegue compreender. A mudança para a cidade onde Tom cresceu deveria representar algum tipo de recomeço, mas coincide com o desaparecimento de outra criança e com a possibilidade de que um antigo caso criminal esteja ressurgindo. É uma configuração eficiente, porém o roteiro de Ben Jacoby e Chase Palmer acumula tantos sinais familiares do gênero que rapidamente podemos antecipar boa parte dos caminhos que pretende percorrer.

O passado chega principalmente através de Pete Willis, ex-detetive responsável pela captura do criminoso conhecido como Homem que Sussurra e também pai de Tom. Robert De Niro poderia transformar esse personagem em uma presença atormentada pela possibilidade de ter deixado escapar algo décadas antes, mas a relação entre pai e filho jamais convence. O roteiro afirma que existe uma história dolorosa entre os dois sem conseguir fazê-la parecer vivida. Mágoas antigas, abandono e ressentimento aparecem em diálogos que deveriam carregar anos de frustração, porém soam como informações necessárias para movimentar a trama. Consequentemente, uma reconciliação potencialmente poderosa se torna apenas mais uma engrenagem do mistério.

Nem mesmo o elenco consegue esconder essa fragilidade. Scott se esforça para transmitir o desespero de um homem que já perdeu demais e funciona melhor quando não precisa sustentar sozinho a dimensão emocional da história. De Niro, por outro lado, atravessa boa parte do filme com um distanciamento que torna ainda mais difícil acreditar naquele vínculo familiar. Michelle Monaghan e Hamish Linklater recebem pouco material capaz de escapar das funções determinadas pelo roteiro, enquanto Michael Keaton, em participação menor, ao menos injeta alguma energia em suas cenas. É curioso assistir a tantos intérpretes competentes parecerem pertencer a produções diferentes.

James Ashcroft tenta compensar essa ausência de personalidade recorrendo a uma atmosfera constantemente soturna. Casas pouco iluminadas, ruas silenciosas, gravações antigas e ambientes dominados por tonalidades apagadas anunciam o tempo inteiro que estamos diante de algo sinistro. Mas atmosfera não nasce apenas de escuridão. O Homem que Sussurra é visualmente monótono e narrativamente arrastado, confundindo lentidão com suspense e solenidade com profundidade. Até elementos potencialmente perturbadores, como as fitas contendo registros relacionados aos crimes, acabam absorvidos por uma encenação incapaz de provocar verdadeiro desconforto.

O desperdício incomoda ainda mais porque existem boas ideias escondidas sob o thriller convencional. Pais emocionalmente ausentes, filhos tentando alcançar figuras que não conseguem compreendê-los e homens permitindo que obsessões destruam suas famílias formam um interessante padrão entre diferentes gerações. A investigação poderia funcionar como instrumento para discutir essa herança de abandono, especialmente quando Pete recebe a oportunidade de reparar com o neto parte daquilo que perdeu com Tom. Entretanto, o filme prefere concentrar seus esforços em revelações progressivamente menos convincentes, como se encontrar a próxima reviravolta fosse mais importante do que desenvolver as pessoas afetadas por ela.

No fim, o maior mistério de O Homem que Sussurra talvez seja descobrir como uma combinação tão promissora conseguiu produzir algo tão pouco marcante. Há um romance bem recebido como ponto de partida, um elenco que dispensaria apresentações e uma premissa capaz de unir investigação criminal e drama familiar, mas quase tudo chega à tela reduzido às convenções mais previsíveis do gênero. Algumas atuações e ideias isoladas impedem o completo desastre, porém são insuficientes para despertar o envolvimento que a história exige. James Ashcroft quer que temamos aquilo que se esconde nos cantos escuros; o difícil é permanecer interessado tempo suficiente para descobrir o que está lá.

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