O Rei da Feira, dirigido por Felipe Joffily, é um filme que mistura realismo mágico, comédia escrachada e suspense policial em um caldeirão que parece, em muitos momentos, mais divertido na proposta do que no resultado final. A ideia de trazer um assassinato misterioso em plena feira, com direito a fofoca de vizinhos, intrigas e reviravoltas espirituais, abre espaço para uma narrativa original dentro da comédia nacional. No entanto, essa ousadia nem sempre se sustenta ao longo do filme.
Leandro Hassum interpreta Monarca, um médium improvisado que precisa ajudar o espírito de seu amigo Bode (Pedro Wagner) a desvendar o próprio assassinato. A trama brinca com a lógica dos whodunits clássicos, lembrando obras como Entre Facas e Segredos, mas rapidamente assume um tom mais farsesco, priorizando a persona cômica de Hassum. O resultado é um personagem que diverte, mas não convence como investigador, já que a investigação parece girar em círculos até a conclusão.

No campo da produção, o longa surpreende positivamente. A construção da feira como cenário é um dos grandes destaques: ampla, barulhenta e colorida, ganha tanto protagonismo quanto os personagens humanos. O trabalho de direção de arte, fotografia e ambientação cria uma atmosfera autêntica e visualmente atraente. É aqui que o filme realmente encontra força, ao valorizar o espaço e a comunidade que representa.
O elenco também contribui para manter o ritmo. Pedro Wagner dá vida a um Bode carismático mesmo depois de morto, funcionando como contraponto às trapalhadas de Monarca. Já Talita Younan, como a perita Angelita, muitas vezes rouba a cena, mostrando mais segurança cômica do que o próprio protagonista. Há uma energia de grupo em que todos parecem se divertir com os exageros da trama, algo que transparece para o espectador.
Entretanto, o roteiro não acompanha o mesmo vigor. Ao tentar equilibrar humor, mistério e drama, acaba escorregando em todos os campos. O humor, dependente de Hassum (que nem vejo tanta graça assim), soa repetitivo; o suspense não chega a criar tensão; e o drama, especialmente nas cenas que envolvem a família de Bode, surge deslocado e sem peso dramático suficiente. Até mesmo o prólogo, que prometia explorar melhor a relação de Monarca com sua mediunidade, se perde em uma resolução simplista.

A comparação inevitável é com outras comédias de Hassum, como Tudo Bem no Natal que Vem. Enquanto naquele filme havia um equilíbrio mais eficaz entre o humor e o arco emocional do personagem, em O Rei da Feira essa balança se quebra, tornando o resultado menos memorável. A inventividade da premissa, que poderia colocar a produção em um patamar acima da média, acaba sendo engolida por uma execução segura demais.
No fim, O Rei da Feira é um entretenimento simpático, que valoriza a cultura popular e o espaço da feira, mas que não se sustenta como narrativa investigativa ou como comédia inovadora. Cumpre bem seu papel de divertir e arrancar risadas aqui e ali, mas deixa a sensação de que poderia ter ido muito além.








