Quase uma década depois da estreia do primeiro longa, John Wick 4: Baba Yaga tenta manter viva a chama de uma das franquias mais populares do cinema de ação recente. A proposta, porém, parece ter perdido parte do brilho original. Com quase três horas de duração, o novo capítulo transforma o que antes era um deleite estilizado em algo mais grandioso e, infelizmente, mais arrastado. A série, que outrora brincava com a estética dos quadrinhos e com um humor ácido irresistível, agora se leva a sério demais – e essa mudança de tom pesa.
O diretor Chad Stahelski continua sendo um mestre na construção visual das cenas de ação. A fotografia, o uso das locações e o ritmo das lutas continuam impressionantes. Passando por Nova York, Berlim, Osaka e Paris, John Wick 4 entrega momentos visualmente marcantes, incluindo uma inspirada homenagem a Os Selvagens da Noite, de Walter Hill. O problema é que o roteiro, agora sem Derek Kolstad – criador da franquia –, abraça um ar operístico que pouco combina com a essência mais sarcástica e direta dos dois primeiros filmes.

Durante a primeira hora, o filme parece patinar. São muitas introduções de novos personagens e sequências de ação que não contribuem muito para o avanço da trama. Só em Berlim o longa realmente engrena, com uma sequência de pôquer memorável e uma ótima dose de estilo e tensão. Ainda assim, a insistência em cenas cada vez mais longas e absurdas – como a escalada interminável dos 270 degraus em Montmartre – cansa. É tudo tão exagerado que chega a flertar com o ridículo, mas sem a leveza necessária para que isso funcione como paródia.
Keanu Reeves, como sempre, entrega o básico com dignidade: poucas palavras, muitos tiros e uma presença marcante. Seu John Wick está mais melancólico do que nunca, e o filme faz questão de reforçar essa dor interna a cada passo. Mas em meio a tanta tragédia e violência, falta o humor ácido e mórbido que dava charme às aventuras anteriores. O peso emocional não encontra equilíbrio com a brutalidade e o estilo, resultando em um tom monocromático.
Entre os novos rostos, Donnie Yen rouba a cena como Caine, um assassino cego que adiciona carisma e energia ao elenco. Bill Skarsgård encarna o vilanesco Marquis com o sadismo necessário, e Shamier Anderson como Nobody é uma adição curiosa que parece já pensar num derivado. O elenco veterano também marca presença, com destaque para Ian McShane e para a breve, mas sentida, participação de Lance Reddick, falecido pouco antes da estreia.

O encerramento, mesmo satisfatório dentro da lógica estabelecida pela franquia, parece chegar tarde demais. John Wick 4 tenta se despedir com dignidade, evitando um clímax exagerado de sangue e violência. Mas depois de tanta repetição e tantas reviravoltas, fica a sensação de que a série perdeu o fôlego. O que começou como uma história simples de vingança estilizada virou uma saga quase mitológica que se esqueceu do que a tornava especial.
John Wick 4: Baba Yaga é uma despedida digna, mas exaustiva. Recheado de cenas impactantes, lutas coreografadas com maestria e um protagonista icônico, o filme ainda tem seus méritos. Mas a jornada ficou longa demais, e o peso da ambição acabou soterrando parte do frescor original. Talvez seja mesmo hora de deixar o Baba Yaga descansar em paz.





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