O Silêncio das Ostras

Onde assistir
"O Silêncio das Ostras": Quando o silêncio fala mais alto

O Silêncio das Ostras, dirigido por Marcos Pimentel, é um filme que emociona e denuncia com sensibilidade extrema. A narrativa é dura, mas poética. Com uma estética marcada por contrastes, entre lama e beleza, brutalidade e delicadeza, o filme mergulha o espectador na realidade visceral das comunidades atingidas pela mineração em Minas Gerais. A atuação impecável de Bárbara Colen, no papel da protagonista Kaylane, sustenta com força e delicadeza o eixo emocional da obra. É um cinema que toca o íntimo e, ao mesmo tempo, politiza, mostrando que o desastre não é acidente, mas um projeto.

A história acompanha Kaylane desde a infância até a vida adulta, revelando sua trajetória marcada pela violência estrutural da exploração mineral. Filha mais nova de uma família operária, Kaylane vive em uma vila dominada pela presença avassaladora da mineradora. O pai e os irmãos representam a força de trabalho descartável. A mãe, sobrevivente resignada. Conforme a vila é desfeita, pelas tragédias e pelo esvaziamento progressivo da vida, Kaylane permanece, sentindo o mundo com a pele, com os olhos e com o silêncio. A presença das ostras e de suas pérolas é metáfora viva da resistência sensível que a personagem representa.

O filme denuncia a miséria de um projeto de destruição sistemática de corpos e territórios. A lama que invade a vida dos personagens é mais que resíduo tóxico, é a violência tornada cotidiano. As tragédias reais do rompimento das barragens da região de Brumadinho são panos de fundo a parte do enredo, conectando a ficção à realidade e exigindo que o espectador encare o que muitos preferem esquecer. Ele insere o filme no presente político de Minas Gerais, onde mais de 300 mineradoras continuam operando.

A comunidade e a família de Kaylane representam os diferentes ciclos da degradação: o adoecimento do pai, a exploração dos irmãos, o esgotamento da mãe, o português que vende a vila, a vizinhança que parte, os silêncios que crescem. Compõem um retrato coletivo de desamparo e exploração. Ao mesmo tempo, a sensibilidade de Kaylane se destaca como forma de resistência. Seu olhar para os animais, para a natureza, para as cores e os detalhes é o que impede que a devastação seja total. Em meio ao sertão de lama, ainda há vida que pulsa.

Você também pode gostar...