O Som do Silêncio

(2019) ‧ 2h

26.03.2021

O silêncio que ensurdece e revela: A dolorosa reinvenção de si em meio ao ruído interior

O Som do Silêncio constrói sua força a partir de um paradoxo essencial: é um filme profundamente musical sobre a experiência de perder a audição. Desde os primeiros minutos, quando acompanhamos Ruben em sua rotina intensa de shows ao lado da parceira Lou, a obra nos insere num universo de barulho, vibração e pulsação. Por isso, quando o som começa a falhar, a ruptura não é apenas física, mas existencial, um corte abrupto na identidade de um homem que se definia, antes de tudo, pela música.

A narrativa acompanha esse colapso com rigor emocional, evitando dramatizações fáceis. Ruben não perde apenas a audição; perde também o controle sobre o próprio futuro, o senso de pertencimento e a estabilidade que havia construído após um passado de dependência química. O silêncio surge, então, como um espaço hostil e desconhecido, repleto de angústia e negação, e não como um terreno de contemplação ou crescimento imediato.

Riz Ahmed entrega uma atuação de intensidade quase física, traduzindo na postura corporal e no olhar a crescente desorientação do personagem. Seu Ruben é impulsivo, orgulhoso e profundamente vulnerável, alguém que luta contra a ideia de que a surdez possa ser mais do que uma falha a ser corrigida. Essa recusa em aceitar a nova condição move o drama e transforma cada decisão em um embate entre quem ele foi e quem poderá se tornar.

Quando o protagonista encontra a comunidade liderada por Joe, o filme ganha outra dimensão. Ali, o silêncio deixa de ser apenas ausência e passa a ser uma experiência de presença, uma nova forma de existir no mundo. A proposta de “aprender a ser surdo” não surge como resignação, mas como um convite à reconstrução identitária, algo que Ruben inicialmente encara com resistência e desconfiança.

Essa tensão entre aceitação e negação é tratada com delicadeza, evitando soluções fáceis ou discursos moralizantes. O roteiro sugere que o verdadeiro conflito não está apenas na deficiência auditiva, mas na incapacidade de Ruben em abandonar a ideia de que sua vida só tem valor se continuar exatamente como antes. Nesse sentido, o filme investiga com sensibilidade a relação entre arte, ego e dependência, questionando até que ponto a música era vocação ou também uma forma de fuga.

A construção sonora é, sem dúvida, um dos aspectos mais impactantes da obra. Ao alternar entre momentos de ruído abafado, distorções e silêncio quase absoluto, O Som do Silêncio coloca o espectador dentro da percepção fragmentada do protagonista. O resultado é uma experiência sensorial que ultrapassa o drama convencional e transforma a forma como ouvimos, ou deixamos de ouvir, cada cena.

Ao final, o filme opta por um desfecho aberto, coerente com sua proposta de observar processos internos em vez de conclusões definitivas. O silêncio que resta não é vazio, mas carregado de significado: um espaço de possível paz, ainda que permeado por perdas irreversíveis. Assim, O Som do Silêncio se afirma como um estudo íntimo sobre identidade, aceitação e a difícil arte de recomeçar quando tudo aquilo que nos definia desaparece.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS

Elle

Elle

Elle é um thriller psicológico que desafia expectativas desde sua chocante sequência inicial, recusando qualquer conforto narrativo ou emocional. Ao acompanhar Michèle, uma executiva implacável que decide não se comportar como uma vítima convencional após um ataque...

Rustin

Rustin

Rustin, dirigido por George C. Wolfe (A Voz Suprema do Blues), apresenta uma biografia envolvente de Bayard Rustin, um carismático ativista gay cujas significativas contribuições para o movimento pelos direitos civis frequentemente são esquecidas. O filme concentra-se...

Shakespeare Apaixonado

Shakespeare Apaixonado

Em 1998, haviam dois filmes sobre meteoritos em rota de colisão com a Terra, duas animações sobre insetos e dois filmes que acompanhavam momentos do reinado da Rainha Elizabeth. O tom de ambos os filmes com a rainha Elizabeth é totalmente diferente, é verdade, com...