O Sorveteiro

(2026) ‧ 1h27

Uma maldição com sabor de exagero

Rapha Ritchie

Uma cidade pequena, férias de verão, crianças andando pelas ruas e um caminhão de sorvete que, naturalmente, deveria ser uma das imagens mais tranquilas possíveis desse cenário. Só que o doce vendido por um sujeito bastante estranho vem acompanhado de uma maldição que transforma quem come em assassino, e logo são os adultos que precisam fugir enquanto um grupo de crianças tenta descobrir de onde veio aquilo tudo. Não demora muito para perceber que a grande diversão está justamente aí, nessa troca bastante simples entre quem normalmente precisa ser protegido e quem agora está correndo risco de morrer.

O Sorveteiro é um terrorzinho curto, sangrento e bastante despretensioso durante boa parte de seus 86 minutos, com Eli Roth aproveitando a imagem de crianças enlouquecidas perseguindo adultos sem qualquer preocupação em tornar aquilo minimamente plausível. Tem gore, claro, algumas mortes mais gráficas e bastante sangue, mas curiosamente existe até certa moderação considerando quem está dirigindo e o material que tem nas mãos. A violência está mais próxima da piada macabra do que de qualquer tentativa real de incomodar, assim como o interesse do longa passa muito mais pelo absurdo da situação do que por medo ou tensão.

E talvez justamente por isso seja estranho perceber o quanto a história começa a se esforçar para explicar uma ideia que era perfeitamente capaz de sobreviver sem tanta explicação. Aos poucos surgem a origem do sorveteiro, a lógica da maldição e uma tentativa de dar alguma dimensão emocional a tudo aquilo, como se crianças matando adultos depois de tomar sorvete precisassem, em algum momento, adquirir uma importância maior para justificar a existência do longa.

O problema não está simplesmente em conhecer mais sobre o vilão. Está no fato de que o que descobrimos é menos interessante do que aquele homem estranho chegando com seu caminhão e distribuindo caos pela cidade. Cada camada acrescentada tira um pouco da espontaneidade da brincadeira, e o que era uma comédia de terror assumidamente idiota começa a parar para contar uma história mais séria do que o restante parece pedir.

A duração enxuta evita que isso se torne realmente cansativo, mas também deixa ainda mais evidente que talvez não houvesse necessidade de procurar tanta coisa por trás de uma ideia tão pequena. Algumas histórias ganham justamente porque aceitam seu tamanho. Esta perde um pouco da graça toda vez que tenta convencer a gente de que aquele sorvete escondia muito mais do que precisava.

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