Parece que só no Brasil conseguimos mudar toda a lógica da distopia e deixá-la a nosso favor. O diretor Gabriel Mascaro desde, pelo menos, Boi Neon, passando por Divino Amor e agora com O Último Azul, gosta de ignorar qualquer tipo de convenção e trabalhar diretamente com o inesperado, independente se isso vai ou não fisgar quem está assistindo. Os seus personagens são dotados de uma alteridade que beira ao radical, quase como aquelas da franco-belga Agnès Varda. Isso acontece com Tereza (Denise Weinberg, impecável), protagonista de O Último Azul que, aos 77 anos, em um Brasil distópico, deve ir para uma tal de Colônia. Esse país do futuro não quer que as pessoas mais jovens se preocupem com os idosos e, adivinhe: como numa versão toda nossa de A Balada de Narayama, ela deve simplesmente aceitar o seu fim e ir embora. Porém, Tereza quer ter um pouco do gosto da vida; trabalhou até aqui, criou a filha e nunca saiu da sua cidadezinha no interior da Amazônia.

Tereza quer ver como tudo parece lá do céu. Obcecada com a ideia de voar, ela vai empreender uma viagem ao estilo on the river (brincando com on the road) para encontrar alguém que a leve para voar de alguma maneira. Com esse pé no rio (em vez de pé na estrada, essa viagem em busca de algo) vai fabular uma vida possível fora da lógica de viver de um jeito contido, afinal não pode ser só isso. Aí que Tereza vai conhecer personagens dignas de habitarem os rios brasileiros: o marinheiro de água doce Cadu (Rodrigo Santoro, numa breve aparição à la gato de Cheshire), o Ludemir (Adanilo), que olha no olho dos animais do jogo do bicho, e a sensacional Roberta (Miriam Socarrás) uma idosa ateia que vende tablets de vidro para ler a bíblia. Essas pessoas tornam a trajetória de Tereza (e a nossa como espectadoras) mais fabulosa, como se detalhes muito simplórios da vida fossem (talvez sejam) acontecimentos que mudam nossa visão diante de tudo.

Gabriel já levou neste ano de 2025 o prêmio de júri do Festival de Berlim, e o filme tem sido muito bem recebido mundo afora. Não é de se espantar, pois O Último Azul abraça quem assiste apesar do tema conduzido por uma crítica contundente: o que vai acontecer com um país onde se envelhece cada vez mais, exigindo melhores condições de previdência e saúde? Porém, o longa move outras questões sobre etarismo, corpo, sexualidade, classe e geografia. E acena respostas para essas questões se dando o direito de fabular, talvez uma das nossas práticas básicas dentro de uma cultura como a nossa, cheia de histórias fantásticas que contornam nossas vidas. Destaque especial para o olhar amazônico que o filme oferece, funcionando muito bem com a proposta fora das convenções sobre o que uma mulher de 77 anos pode querer vivendo fora do centro, voando num futuro que, como toda boa distopia, parece ser aqui e agora, perto da gente. Tereza é uma rebeldia que afaga, um aceno para o nosso futuro.




