O Último Moicano

(2024) ‧ 1h27

14.08.2025

Resistir até o fim: A luta de um “Último Moicano” contra o capital

O drama francês O Último Moicano, dirigido e roteirizado por Frédéric Farrucci, conduz o espectador à ilha de Córsega, região marcada pela beleza e imponência de suas paisagens costeiras do mar mediterrâneo. Entre rochas, mar e montanhas, a ilha torna-se o cenário ideal para evidenciar o contraste entre a vida simples do protagonista e a violência dos interesses econômicos que avançam sobre o território.

A narrativa acompanha Joseph (Alexis Manenti), um dos últimos pastores de cabras da costa corsa, cuja delicadeza e apego à terra contrastam com a brutalidade das pressões externas. Em vários aspectos, o filme remete a Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho, ao tematizar o embate entre a resistência individual e a ganância do capital. Joseph recusa-se a vender sua propriedade para grupos imobiliários em uma região já dominada pelo turismo de luxo, entrando em confronto direto com uma rede mafiosa. Diante da força avassaladora do mercado, a tradição pastoril, o cuidado com os animais e a cultura local tornam-se símbolos de resistência ameaçados de extinção.

O enredo ganha força inicial ao articular a tradição pastoril, a dimensão simbólica da terra e a crítica social. Contudo, perde fôlego ao se deslocar para a longa fuga de Joseph, iniciada após o assassinato acidental de um dos representantes da máfia. A perseguição, que percorre a ilha de sul a norte, introduz suspense, mas repete fórmulas previsíveis e enfraquece a densidade dramática construída no início da trama.

A inserção de Vanina (Mara Taquin), sobrinha de Joseph, tenta reavivar a narrativa. Por meio de campanhas digitais, ela denuncia a violência sofrida pelo tio e o transforma em uma espécie de herói popular, símbolo de resistência contra os desmandos do capital. Assim, o homem simples e recluso converte-se em lenda de coragem, um “último moicano” que insiste em resistir, mesmo quando o capital e a violência parecem imbatíveis.

É um drama que combina denúncia social, crítica ao turismo predatório e contemplação da paisagem insular da Córsega. Ainda que oscile entre a força política de seu enredo e a fragilidade narrativa de sua fuga prolongada, o filme deixa como legado a imagem de Joseph, uma figura que resiste até o fim diante da violência do capital.

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AUTOR

Renata Barbosa

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