O’Dessa

Onde assistir
A ousadia visual e musical de "O’Dessa"

Geremy Jasper retorna ao cinema com um projeto que abraça o exagero e a extravagância em cada quadro. Se em Patti Cake$ ele trabalhou com um orçamento limitado, mas muita personalidade, aqui ele se entrega ao maximalismo total, criando um épico musical ambientado em um cenário pós-apocalíptico. O’Dessa é uma ópera rock ambiciosa, visualmente grandiosa e cheia de energia, ainda que, em alguns momentos, sua própria grandiosidade ameace engolir sua história. E o mais legal, tem produção da brasileira RT Features, do Rodrigo Teixeira, que co-produziu Ainda Estou Aqui.

O filme acontece em um universo caótico e estilizado, misturando influências de Mad Max e Blade Runner, mas sem perder uma identidade própria. Jasper constrói um mundo vibrante, repleto de personagens excêntricos e cenários que parecem saídos de um delírio febril. O design de produção é um espetáculo à parte, e a cidade de Satylite se torna um personagem por si só, com suas ruas iluminadas por neon e sua atmosfera que mistura distopia e carnaval.

Sadie Sink assume o papel principal com intensidade e carisma, trazendo força à jornada de O’Dessa. Sua performance equilibra a inocência e a rebeldia necessárias para transformar a protagonista em uma figura cativante. Ao lado dela, Kelvin Harrison Jr. brilha como Euri, enquanto Regina Hall e Murray Bartlett roubam a cena com atuações deliciosamente exageradas, dando vida a figuras que transitam entre o grotesco e o cartunesco.

A música, elemento central do longa, funciona tanto como propulsora da narrativa quanto como espetáculo individual. As canções são explosivas e envolventes, e há uma energia que remete ao espírito irreverente de musicais como O Estranho Mundo de Jack e Moulin Rouge: Amor em Vermelho. No entanto, em meio a tanta intensidade, o roteiro nem sempre dá espaço para que a história respire, fazendo com que certas transições – especialmente o romance entre O’Dessa e Euri – pareçam apressadas.

A trama acontece em ritmo frenético, e a estrutura do filme lembra um videoclipe estendido, onde o impacto visual e sonoro muitas vezes se sobrepõe ao desenvolvimento emocional. Isso não chega a ser um defeito absoluto, pois a proposta claramente abraça esse excesso, mas pode deixar a sensação de que há algo subjacente ao espetáculo que nunca é completamente explorado.

Ainda assim, O’Dessa tem potencial para se tornar um cult com o passar dos anos. Em um mercado saturado de remakes e franquias, há algo de refrescante em ver um filme que arrisca tanto, sem se prender a fórmulas pré-estabelecidas. É o tipo de longa que pode encontrar seu público com o tempo, especialmente entre aqueles que buscam algo fora do convencional e que apreciam a fusão entre cinema, música e estética ousada.

No fim, mesmo que nem tudo funcione perfeitamente, é impossível não admirar a audácia de O’Dessa. Jasper entrega um filme vibrante, pulsante e carregado de identidade, um espetáculo visual e sonoro que prova que ainda há espaço para a originalidade no cinema. Pode não agradar a todos, mas sua coragem em abraçar o exagero merece ser celebrada.

Você também pode gostar...