Operação Vingança é um daqueles filmes que parecem ter vindo de um tempo muito específico — não da narrativa em si, mas da nossa relação com o mundo e com o gênero do thriller de espionagem. Dirigido por James Hawes e protagonizado por Rami Malek, o longa parte de uma premissa clássica: a vingança de um homem comum levado ao limite. A diferença é que esse homem comum trabalha para a CIA, tem acesso privilegiado à tecnologia mais avançada do mundo e decide usar isso tudo para caçar os responsáveis pela morte de sua esposa. E ainda assim, o filme consegue se sentir ao mesmo tempo absurdo e estranhamente envolvente.
O que começa como uma história de luto e raiva logo se transforma numa espécie de conto high-tech sobre justiça pessoal. Malek interpreta Charles Heller com uma intensidade que beira o exagero — sua atuação cheia de tiques, olhos arregalados e expressões doloridas tenta evocar a dor profunda do personagem, mas frequentemente o leva para um território teatral. O roteiro não o ajuda muito: cenas como a recriação digital do atentado que matou sua esposa, em que ele consegue dar zoom no rosto do assassino a partir de qualquer ângulo, parecem saídas de um episódio de CSI.

Ainda assim, é fascinante ver como Operação Vingança tenta se atualizar sem abandonar as raízes do gênero. Ao trocar a paranoia da Guerra Fria por medos mais contemporâneos — terrorismo em solo ocidental, manipulações internas, vigilância constante — o filme reconhece que os vilões de hoje são mais difusos, mais próximos e, às vezes, estão dentro de casa. A figura de “O Urso”, interpretado por Jon Bernthal, parece surgir apenas para lembrar que, em tempos não tão distantes, a história teria sido sobre ele — o macho alfa indestrutível em missão sigilosa. Hoje, o centro é ocupado por um civil desajeitado armado com seu luto e wi-fi.
É verdade que o filme se sabota em vários momentos. A lógica de algumas cenas beira o ridículo — como o assassinato usando pólen ou o confronto numa piscina suspensa de vidro — e o nível de verossimilhança é jogado pela janela em nome do espetáculo. Mas talvez isso seja parte do charme. Operação Vingança parece saber que já não vivemos em um mundo de certezas morais. Tudo está embaralhado, e o filme embarca nessa confusão sem muita vergonha. Entre tiros, explosões e reviravoltas, surgem reflexões reais sobre o papel da inteligência na era da superinformação: saber tudo não significa entender o que fazer com esse conhecimento.
No fundo, Operação Vingança não está interessado em responder as perguntas que levanta. Ele quer nos mostrar o rosto humano por trás do sistema — mesmo que esse rosto seja interpretado por um ator cuja intensidade às vezes ameaça engolir a história. É um filme sobre agir quando ninguém mais quer agir, sobre cruzar limites éticos em nome de uma justiça pessoal que, aos olhos da instituição, soa como desobediência.

O final é surpreendentemente otimista. Depois de tantas revelações amargas, traições e conspirações, o filme nos oferece uma esperança quase inocente de que ainda há salvação, que talvez o sistema não esteja completamente perdido. Soa fora de lugar, quase como um delírio, e talvez por isso mesmo seja tão tocante. É um gesto de fé num mundo onde até isso parece ser controlado por algoritmos.
Talvez, no futuro, Operação Vingança seja visto como um relicário de uma época de transição, um reflexo de um momento em que ainda acreditávamos que sabíamos quem eram os mocinhos — ou pelo menos queríamos acreditar. Por ora, é um thriller desequilibrado, mas instigante, que vale a pena pela curiosidade e pelo debate que provoca. E, convenhamos, só por causa da cena do pólen, ele já merece ser visto.





