Os Anarquistas

19.05.2016 │ 12:32

19.05.2016 │ 12:32

O Amor me Fez Anarquista diz a jovem libertária Judith, interpretada por Adéle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente), deixando claro que a paixão pelos ideais é uma das forças motrizes da vida. Os Anarquistas, dirigido por Elie Wajeman e roteiro de Gaëlle Macé, tem uma premissa forte de mostrar uma parte da cena libertária da França na virada do século passado, mas perde o ritmo ao querer contar apenas uma história de amor entre um homem e uma mulher.
Na virada do século XIX para o XX, em uma Paris que fervilhava politicamente, um policial jovem e exemplar é recrutado para se infiltrar em um grupo de anarquistas. Jean Albertini (Tahar Rahim) aparentemente não tem aspirações políticas e assim que solicitado larga toda a sua vida para dar conta do serviço. Trabalhando em uma fábrica de pregos, logo se encontra com as forças sindicais e todo tipo de insatisfação com as condições de trabalho. Apesar de frequentar os mesmos espaços e vez em outra soltar frases do filósofo Bakunin (um dos pensadores anarquistas), quase nunca Albertini está à vontade no círculo ou na investigação. Quando passa a morar numa casa compartilhada com o grupo do idealista e inteligente Elisée (Swann Arlaud) é o momento que as tensões ideológicas crescem e Jean se vê envolvido emocionalmente e sexualmente pela livre e confiante Judith, dando ínicio ao clima de thriller.
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A capital francesa desse momento já era um forte símbolo de lutas pelas liberdades, além de passagem certa para líderes e todo tipo de revolucionário. Várias questões de classe são colocadas em pauta durante Os Anarquistas; Desde Albertini que ascende socialmente de um orfão para um policial, até os questionamentos práticos entre os anarquistas que não lutam pelo poder, mas sim pela liberdade. As relações com a burguesia da cidade acontecem pelo vínculo empregatício ou como rechaço, através de furtos com finalidades revolucionárias, afinal a cultura do compartilhamento está no cerne da ideologia.
Apesar do cuidado em retratar as relações de poder e de manter um discurso coerente nos diálogos, Os Anarquistas perde forças ao manter o foco no romance entre Judith e Jean. Todo o contexto histórico e pauta política se tornam grandes imprevistos em uma história que descamba ao açucarado, ainda presa em um romantismo clichê, comumente associado ao século XIX. Não que Wajeman e Macé não pudessem ter tratado do romance nesse ambiente quase hostil de uma revolução, mas no longa nem as questões políticas, muitos menos a relação do casal, são bem desenvolvidas a ponto de merecerem destaque.
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Os Anarquistas aproveita bem os atores, a excelente atuação de Adéle Exarchopoulos, que assim como em Azul é a Cor mais Quente (2013), demonstra um total conforto em ser uma mulher firme em suas escolhas. Em vários momentos o roteiro se molda perfeitamente à personagem Judith, relegando a Jean Albertini frase clichês e românticas que, apesar de tocarem a jovem, não abalam seus ideais libertários. Aliás, todas as mulheres do filme são muito bem posicionadas, fazendo jus às igualdades propostas pelas correntes anarquistas e a grandes figuras do movimento como Louise Michel e Emma Goldman. Destaque também para Swann Arlaud, um apaixonado líder de grupo e Guillaume Gouix, companheiro de luta.
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Com vários paradoxos, como trilha sonora anacrônica mas com um belo design de figurino (a ótima Anais Romand), Os Anarquistas se apresenta como um longa irregular porém esforçado. Como citado logo no início, é o amor a força motriz da vida e também das revoluções, o filme de Elie Wajeman tenta dar conta da paixão de vários militantes que acreditavam na liberdade de sua revolução, crença essa que talvez hoje precise de ainda mais destaque.
Nota:

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