Os Ruminantes

(2026) ‧ 1h20

Um filme sobre um filme que nunca existiu

Felipe Fornari

Os Ruminantes parte de uma premissa fascinante: investigar a história de um dos projetos mais ambiciosos do cinema brasileiro que jamais chegou às telas. A partir do roteiro inédito de A Hora dos Ruminantes, escrito por Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernardet em 1967, o documentário amplia seu escopo para refletir sobre a ditadura militar, a censura e os caminhos interrompidos da produção cinematográfica nacional. Mais do que contar a história de um filme inacabado, a obra revela tudo aquilo que sua ausência ainda é capaz de dizer.

A direção de Tarsila Araújo e Marcelo Mello demonstra segurança ao organizar uma grande quantidade de informações sem perder de vista o aspecto humano da narrativa. Os depoimentos de Jean-Claude Bernardet, Marina Person e outros entrevistados ajudam a reconstruir não apenas o processo criativo por trás do projeto, mas também o ambiente político e cultural que dificultava qualquer iniciativa artística mais ousada naquele período.

Um dos maiores méritos de Os Ruminantes está em mostrar como um filme nunca realizado também pode fazer parte da história do cinema. O documentário evidencia que obras interrompidas, censuradas ou abandonadas ajudam a compreender tanto uma cinematografia quanto aquelas que efetivamente chegaram ao público. Nesse sentido, o longa transforma a ausência em objeto de investigação, despertando curiosidade sobre aquilo que poderia ter sido um dos grandes filmes brasileiros.

A pesquisa histórica é outro ponto forte. O uso de documentos, imagens de arquivo, entrevistas antigas e registros inéditos oferece consistência ao relato, enquanto revela episódios pouco conhecidos envolvendo a censura e os impactos da ditadura sobre a circulação internacional do cinema brasileiro. Sem recorrer ao didatismo excessivo, o filme contextualiza esses acontecimentos de forma clara e acessível.

Também chama atenção a maneira como o documentário estabelece conexões entre literatura, cinema e política. Ao abordar a adaptação do romance de José J. Veiga, a narrativa demonstra como o realismo fantástico dialogava com o contexto autoritário vivido pelo país. Essa relação amplia o alcance da discussão e mostra que a criação artística frequentemente encontra caminhos indiretos para enfrentar períodos de repressão.

Em alguns momentos, entretanto, o longa parece pressupor certa familiaridade do espectador com a trajetória de Luiz Sergio Person e de Jean-Claude Bernardet. Quem não conhece profundamente suas obras ou o contexto do Cinema Novo pode sentir falta de um desenvolvimento maior sobre alguns personagens e acontecimentos. Essa pequena limitação não compromete a experiência, mas reduz um pouco seu alcance para o público menos familiarizado com esse período do cinema nacional.

Ainda assim, Os Ruminantes realiza um importante trabalho de preservação da memória cultural brasileira. Ao recuperar um projeto esquecido e utilizá-lo como ponto de partida para discutir censura, criação artística e patrimônio cinematográfico, o documentário reafirma a importância de olhar não apenas para os filmes que foram feitos, mas também para aqueles que jamais puderam existir. É uma obra instigante, que transforma um vazio histórico em uma reflexão rica sobre o cinema e o Brasil.

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