Ouvidor, dirigido por Matias Borgström, é um registro que transcende o formato tradicional de documentário para se transformar em testemunho histórico. Acompanhando a trajetória da ocupação Ouvidor 63, o longa revela como um espaço abandonado no centro de São Paulo tornou-se não apenas um lar, mas também um polo cultural autogerido, onde arte e política se entrelaçam na luta pelo direito à moradia e à livre expressão artística.
O filme constrói sua narrativa a partir da perspectiva dos moradores, evitando a armadilha de um olhar voyeur. A câmera é paciente, observadora, permitindo que a essência coletiva da ocupação se manifeste em debates, festas, reuniões e silêncios. Há uma força poética nos momentos que captam o improviso da vida cotidiana, como as pinturas em paredes descascadas ou os ensaios de música ecoando pelos corredores. Essa estética reforça a ideia de que a arte não é ornamento, mas ato de sobrevivência.

O grande mérito de Ouvidor está em equilibrar duas dimensões fundamentais: a luta externa contra as ameaças de despejo e a tensão interna provocada pelo dilema ético de aceitar patrocínio para realizar a Bienal do coletivo. A proposta da Red Bull, aparentemente tentadora diante da escassez de recursos, escancara fraturas ideológicas e questiona os limites entre independência e cooptamento. Essa discussão, longe de ser superficial, é um dos pontos altos do filme, pois revela como a resistência cultural não é homogênea – é feita de conflitos, negociações e contradições.
Em meio a isso, a obra não deixa de contextualizar a crise habitacional brasileira e o avanço das políticas autoritárias que ameaçam espaços autônomos. Sem recorrer a discursos panfletários, o longa evidencia como a Ouvidor 63 se insere em um cenário de retrocessos sociais, mostrando que cada obra de arte produzida ali é, em si, um gesto político. A câmera acompanha não apenas manifestações e assembleias, mas também a intimidade dos artistas, humanizando uma luta frequentemente reduzida a números e manchetes.
Tecnicamente, Ouvidor é um filme que aposta na organicidade: a montagem, assinada por Oswaldo Santana, privilegia o fluxo do tempo real, criando uma sensação de imersão. A fotografia, longe de buscar a estética polida, abraça o improviso e a textura áspera dos ambientes, traduzindo visualmente o caráter insurgente do espaço. Essa escolha dá autenticidade ao relato e reforça a potência política da forma.

Ao final, resta no espectador um misto de admiração e inquietude. Admiramos a coragem de quem insiste em criar onde tudo conspira para a destruição, mas saímos com a pergunta latente: até que ponto a arte pode permanecer livre diante da necessidade material? O filme não oferece respostas fáceis – e é justamente por isso que permanece em nossa cabeça mesmo após o fim da projeção.
Com sensibilidade e rigor, Ouvidor nos lembra que a luta pela arte é também a luta pela vida, e que a ocupação não é apenas um lugar físico, mas um símbolo de resistência contra um modelo de sociedade que insiste em mercantilizar tudo. É cinema necessário, feito com escuta, urgência e paixão.







