Pequenas Tragédias

(2026) ‧ 1h59

O êxodo queer e a falsa calmaria do interior em Pequenas Tragédias

Lygia Richard

As pacatas cidades do interior brasileiro frequentemente carregam o verniz de um refúgio acolhedor, um pedaço do paraíso imune ao caos urbano. No entanto, para quem ousa desviar da norma, esses mesmos cenários podem se revelar uma prisão sufocante. É exatamente essa dicotomia que pavimenta o centro narrativo de Pequenas Tragédias. Partindo de uma premissa autobiográfica, o longa acompanha o rastro deixado por um grupo de amigos LGBTQIAPN+ de Catalão, em Goiás, que começou a se desfazer em 2011 quando o diretor Daniel Nolasco partiu para o Rio de Janeiro. Uma década depois, o saldo daquela juventude é marcado por mortes precoces e pelo abandono forçado do lugar que, ironicamente, todos juravam ser maravilhoso para se viver.

Longe de apostar em uma reconstituição tradicional ou num documentário engessado, o cineasta opta por uma abordagem estética deliciosamente híbrida e artificial. Ao fundir elementos teatrais, ficcionais e performáticos, o longa permite que os atores interajam diretamente com a câmera e transitem por cenários assumidamente improvisados. Essa liberdade estrutural é fundamental para o sucesso do projeto, pois reflete a própria natureza fragmentada da lembrança humana. Em vez de se apegar à precisão histórica de cada rua ou calçada de sua terra natal, Nolasco prefere capturar a essência absurda de suas recordações, transformando o trauma íntimo em um potente palco de discussão coletiva.

Como arma contra o moralismo hipócrita, o deboche surge como um dos grandes trunfos da montagem. A câmera não tem vergonha de exibir corpos masculinos em toda a sua glória, abusando de figurinos extravagantes e atuações propositalmente exageradas que ridicularizam os chamados “cidadãos de bem” locais. Contudo, engana-se quem pensa que o erotismo e a provocação em Pequenas Tragédias servem apenas ao choque gratuito. Trata-se, na verdade, de um gesto firme de retomada de poder. Ao celebrar o desejo abertamente, o filme arranca a sexualidade dissidente da zona de marginalização e julgamento, elevando a libertação dos corpos a uma ferramenta central de resistência e afirmação identitária.

Por baixo de tantas camadas de irreverência, respira uma melancolia profunda que dita o verdadeiro compasso emocional do longa. O êxodo daqueles jovens não foi motivado apenas pela busca de aventura, mas por uma necessidade urgente de sobrevivência diante de uma violência silenciosa, feita de exclusão, silenciamentos e completa falta de horizonte. Os momentos mais arrebatadores da projeção acontecem justamente quando a festividade dá lugar ao luto, prestando tributos belíssimos a figuras reais que não tiveram a mesma chance de escapar. As homenagens delicadas à travesti Monalisa e a Samuel, amigo do diretor, despem a obra de seus artifícios e entregam uma humanidade crua e devastadora.

Além de expor a opressão conservadora, o roteiro também encontra espaço para alfinetar a falsa simetria do discurso progressista moderno. Há uma reflexão afiada sobre como o apoio virtual e as palavras bonitas raramente se traduzem em acolhimento prático para os marginalizados. Embora certas caricaturas beirem o limite do esquemático e as transições entre o humor rasgado e a tragédia profunda possam causar um solavanco em espectadores menos habituados, é exatamente essa recusa em seguir cartilhas padronizadas que injeta vitalidade ao material. O público é constantemente convidado a recalcular sua rota emocional junto com a narrativa, numa experiência que exige entrega.

Consolidando-se como uma das propostas mais corajosas do cinema nacional recente, Pequenas Tragédias prova que a dor e a morte não precisam ofuscar a luz da existência. Nolasco orquestra um longa que recusa o papel de vítima para seus protagonistas, preferindo eternizá-los em toda a sua complexidade, beleza e vontade de viver. As perdas irreparáveis dividem a tela com gargalhadas e suor, lembrando-nos de que a busca por espaço é, muitas vezes, uma jornada brutal, mas absolutamente inegociável. Trata-se de um triunfo catártico que transforma cicatrizes provincianas em um manifesto espetacular sobre a urgência de ser quem se é.

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