Primeiro as Damas parte de uma premissa que, em teoria, poderia render uma sátira ácida e inteligente sobre desigualdade de gênero e machismo estrutural. A ideia de colocar um homem privilegiado em um mundo dominado por mulheres abre espaço para comentários sociais interessantes, especialmente dentro do ambiente corporativo competitivo da publicidade. O problema é que o filme rapidamente desperdiça qualquer potencial ao transformar tudo em uma sucessão cansativa de piadas óbvias e repetitivas.
Sacha Baron Cohen interpreta Damien Sachs sem encontrar exatamente o tom da proposta. O personagem deveria funcionar como uma caricatura arrogante que, aos poucos, percebe os próprios privilégios, mas o ator parece desconfortável durante boa parte da narrativa. Falta carisma para sustentar a transformação emocional do protagonista, e o roteiro também pouco ajuda, insistindo em situações exageradas que raramente encontram humor genuíno.

Rosamund Pike até consegue trazer alguma dignidade ao caos como Alex Fox, executiva competente que assume uma posição de poder no universo invertido da trama. O problema é que o longa nunca desenvolve sua personagem além da função narrativa de “lição moral” para Damien. Pike claramente tenta elevar o material com presença e ironia, mas está presa a um texto simplista demais para permitir nuances maiores.
O longa sofre especialmente por depender de uma única piada estendida ao limite. Quase todas as cenas seguem exatamente a mesma lógica: inverter comportamentos machistas tradicionais e esperar que isso, por si só, gere humor. Em alguns momentos, a repetição se torna tão insistente que a sátira perde força e passa a soar preguiçosa. O filme parece acreditar que apenas apontar o absurdo do sexismo já basta para construir uma boa comédia.
Existe ainda um problema de construção de universo. As regras desse mundo alternativo mudam conforme a conveniência do roteiro, sem muita coerência interna. Isso enfraquece tanto os momentos cômicos quanto a crítica social que o longa tenta estabelecer. Diferente de produções como Do Que as Mulheres Gostam, que utilizavam uma fantasia semelhante para explorar relações humanas com algum charme e leveza, aqui tudo soa artificial e excessivamente didático.

Nem mesmo o elenco de apoio consegue salvar a experiência. Há atores talentosos desperdiçados em participações caricatas e esquetes que parecem saídas de uma comédia genérica dos anos 2000. Em vez de atualizar o debate sobre misoginia no ambiente de trabalho, Primeiro as Damas simplifica o assunto a tal ponto que acaba parecendo datado antes mesmo de terminar. Melhor correr e ver Como Eliminar Seu Chefe (1980).
O mais frustrante é perceber que existe uma discussão válida escondida sob a avalanche de piadas ruins e situações constrangedoras. O filme acerta ao lembrar que mulheres continuam enfrentando desigualdade e desvalorização profissional, mas falha completamente ao tentar transformar isso em humor inteligente. No fim, a produção não provoca reflexão nem entrega boas risadas, tornando-se uma sátira sem criatividade sobre um tema que merecia muito mais cuidado.





